Um manezinho esnobe

O homem que não acreditava em bruxas de Cascaes¹

Apanhado de pérolas do folclore ilhéu
Por Gunga Rodrigues

O cenário:
O Anestori das Caldeira era um moço muito petulante, vaidoso e sempre pensou que era o único indivíduo deste vale de lágrimas que dominava todas as línguas. Sabia tudo, mas tudo mesmo, até a língua dos bichos. Andava sempre bem empetecado e sisudo, durinho como picolé dentro da geladeira.

Não dava confiança à moça pobre para namorar, nem mesmo para manter com elas uma simples conversa costumeira. Não admitia assuntos míticos e atacava esbravejando o mundo das coisas imaginárias. Enfim, andava sempre às turras com tudo e com todos.

Certa feita foi visitar parentes longínquos e saiu de lá aborrecido, depois do assunto das conversas cambar pros lados das vantagens fantasmagóricas. Pôs os pés na estrada e anoiteceu antes dele chegar em casa.

A vingança bruxólica:
Quando o Anestori passou entre dois capões de mato, estava ali, à espera dele, um bando de moças solteiras, todas bruxas. Sete moças virgens que moravam na comunidade dele e o conheciam bem. A mais velha bradou sinistramente em voz rouquenha: – cerquem esse moço que não acredita no mundo mítico das assombrações! Faz pouco tempo, ele acabou de xingar com palavras cortantes a nossa vida e a organização governamental do chefe Lúcifer!

Em seguida indagou: – então, heim? Seu vaidoso, prosa, falador! Afirmas que não acreditas em bruxaria e até a maltratas com injúrias e maledicências? Agora estás preso em nossas unhas bruxólicas! A tua língua serviu para o chicote que vamos usar para te bater! Turma, tirem a roupa dele e o deixem nuzinho assim mesmo como nasceu! Nós somos mulheres bruxas solteiras, mas não te queremos para nada, seu tratante, imbecil! Usem as vassouras para limpar-lhe o corpo, mas esfreguem bem e com força, usando folhas de urtiga! Depois o arrastem lá para o meio do mato. Amarrem o piru dele pelo pescoço e, com a mesma corda, amarrem-no num pé de baga-de-cobra, para homenagear e desagravar a madame bruxa serpente paradisíaca! Apanhem urucum e façam muitos riscos no corpo dele; coloquem carrapicho de carneiro no cabelo da cabeça, até fazer um enleamento indesatável! Urinem na botija e façam ele beber o mijo todo, porém sem matá-lo! Para finalizar, amarrem o paletó, a camisa, a gravata, a calça, a ceroula, as meias e os sapatos num cipó e atem-no na corda que o piru tá amarrado pelo pescoço e o soltem na estrada pra ele ir pra casa ficar de remolho por uns três dias! Mas antes amarrem as mãos dele bem amarradas!

O que dizer...:
Pobre do Anestori! Foi judiado por sete estrelas bruxólicas do reino do sub-solo dos céus que quase o castraram...

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Você pode até não acreditar em bruxas, mas que elas existem, existem!
E tome cuidado! Não saia por aí difamando ou injuriando com palavras cortantes o reino delas!

A vingança pode ser maligna!

¹ Silveira, C.R. Um bruxo na Ilha: Franklin Cascaes. (Resgate de narrativas inéditas). Florianópolis: UFSC, 1996. 449fl. (Dissertação. Mestrado em Letras).