Mulher vestida de preto

 Por Gunga Rodrigues
(um causo ilhéu à moda de
Woman in black - Foreigner)

O Nico Lopes era um jovem pescador da Armação de Sant’Ana do Pântano do Sul. Aos 18 anos, um guri ainda, herdou de seu falecido pai o rancho de pesca, uma lancha e vários petrechos. Devido seu pai estar doente há mais tempo, ele já assumira as lidas da pesca e era organizado e bem cuidadoso. Nada ficava fora de lugar no rancho e a lancha sempre era guardada limpa. O rancho ficava numa borda de restinga, algo afastado do canto da praia, onde se situavam os outros ranchos de pesca e a comunidade da Armação. Por isso mesmo, Nico passava cadeado na porta ao final do dia, para ir sossegado pra casa.

Boa pinta e bom partido, sozinho no mundo, sem pai nem mãe, o Nico despertava olhares nada furtivos das garotas da vila. E havia uma delas, em especial, que morria de paixões por ele. Ela era muito bonita e atraente, mas tinha a peculiar predileção por só usar vestidos pretos. Vestidos que até combinavam com seus compridos e lisos cabelos pretos, mas que a destoavam na comunidade. Tanto, que ela logo pegou fama de bruxa, sendo até meio marginalizada. Mesmo assim, um dia, ela tomou coragem e foi falar com Nico, quando este vinha pela praia ao final da tarde.

O Nico conhecia a garota, até simpatizava com ela, mas se assustava com a fama a ela atribuída. A garota vestida de preto chegou até ele, lhe lançou um olhar apaixonado, mas ele não correspondeu. Então ela lhe disse que nunca fosse ao rancho à noite, pois poderia ser surpreendido por algo que ele não conhecia.

Já há algum tempo, Nico percebera que, quando chegava no rancho pela manhã, sua tarrafa não estava bem do jeito que ele havia deixado secando. Mas ele achava que era alguma ação do vento. Agora, com o aviso da garota de preto, ele ficou curioso e instigado a ver o que realmente acontecia. Naquela noite ele não conseguiu pregar no sono. Remoia em seus pensamentos aquilo que a garota dissera. Ficou assim agoniado, rolando na cama, até que resolveu se levantar e ir até o rancho. Pegou um lampião e tomou rumo da praia.

Já eram horas mortas quando ele chegou nas proximidades do rancho. Viu a porta sem cadeado e ouviu um cantarolar suave e baixinho vindo lá de dentro. Nico apagou o lampião, chegou até a porta e espiou por uma fresta entre as tábuas, mas nada viu. Então, sentiu um calor vir do fundo de seu coração e não mais conseguiu comandar seus movimentos. Abriu lentamente a porta e entrou no rancho. Lá ele viu a silhueta escura de uma mulher. Tentou falar mas sua voz não saiu. Estava hipnotizado por um desejo indomável de estar com aquela linda e misteriosa mulher. Ela lhe prendeu num feitiço. Estava no comando e não iria libertá-lo. Fez ele sentar-se na lancha e flutuando, pôs-se embaixo da tarrafa, que se abriu e iluminou em penumbra onde ela estava. Nico reconheceu a garota de preto, mas não era mais garota, era mulher, linda mulher, daquelas que perturbam a imaginação do mais puro dos homens. E ela estava vestida para o amor, cabelos soltos esvoaçantes e roupas nada usuais. Uma blusa preta de manga, de malha colada, que emoldurava os seios perfeitos, e uma saia curta preta, justa nos quadris, ressaltando suas belas curvas e deixando à mostra suas pernas torneadas. Ela dançou sob a tarrafa e Nico não conseguiu resistir. Deitou-se na lancha e a mulher vestida de preto lhe ensinou algo que ele não precisava explicação.

No dia seguinte, Nico acordou no seu quarto. Não se lembrava como tinha voltado para casa e imaginou que tinha sonhado aquele intenso encontro com a mulher vestida de preto. Saiu de casa para pesca e, na rua, passou pela garota vestida de preto. Cumprimentou-a brevemente e seguiu para o rancho. A uns vinte metros da porta, ele encontrou o lampião que havia usado na noite anterior. Então tinha sido verdade! Ele realmente estivera com a mulher vestida de preto. No mar, no balanço das ondas, aquela misteriosa mulher dominava seus pensamentos. Ele precisava estar com ela outra vez.

Noite fechada e Nico estava novamente no rancho. E lá também estava a silhueta da mulher vestida de preto, perfeita como uma mulher deveria ser. Ele, prisioneiro de seus encantos, de um estranho mundo de fascinação. A mulher de preto o dominava e ele não tinha como resistir. E no berço da lancha se amaram outra vez.

Como no dia anterior, Nico acordou em seu quarto, sem saber como. Estava confuso e perturbado. Pensou espairecer pescando. Saiu de casa e, na praia, encontrou a garota vestida de preto. Nem lhe disse nada, envergonhado que estava por não seguir seu conselho. Porém, olhou bem em seus olhos e sentiu um ar de felicidade neles. Continuou seu caminho e chegou no rancho. Lá só via aqueles olhos. Os olhos da garota, mas que eram os olhos da misteriosa mulher... E apaixonou-se por aqueles olhos. Olhos negros, de sua mulher garota vestida de preto. Correu para ela, disse que estava perdido e que a queria para a vida.

Que ele fosse ao mar, lhe disse a garota, e esperasse o que o mar lhe tinha a dizer. E assim fez Nico. Passou o dia no mar e dele nada ouviu. Ficou desanimado e sem esperanças. O que contaria ele à garota quando voltasse para a praia? Já era noite quando ele terminou de recolher a lancha no rancho. Nisso chegou a garota vestida de preto. Queria saber o que o mar tinha lhe dito. Vacilante, ele disse que não ouvira nada do mar. Então a garota disse que o mar era assim mesmo, guardava seus segredos, e que ele guardaria o segredo dela. O segredo de ser aquela garota mulher, vestida de preto, que o amaria intensamente à noite, mas que o teria como um estranho durante o dia. Até o dia em que garota e mulher se tornassem uma só.

Woman in black - https://www.youtube.com/watch?v=iluMK_f4oks