Praia do Matadeiro da Armação de Sant’Ana do Pântano do Sul

Lamparina e catuto em metamorfose de Cascaes¹

Apanhado de pérolas do folclore ilhéu
Por Gunga Rodrigues

O cenário:
Custódio Damião, mais camaradas vão pescar na Lagoinha do Leste. Nove da noite, aportam a canoa na areia para tomar café. O chumbeiro da rede, Fernando Pé-de-Marreco, pôs-se a destratar a triste sina das coitadas mulheres bruxas e a organização diabólica do seu reino bruxólico.

A canoa é roubada por bruxas, após grande estrondo. A lamparina, o catuto e o leme da canoa foram metamorfoseados e estavam pescando com a rede solta ao mar, com a tralha do chumbo virada por riba das tralhas das cortiças.

O Custódio Damião ficou possesso de raiva e repreendeu Fernando Pé-de-Marreco, dizendo que as mulheres que vieram a este mundo com a triste sina, marcadas por Deus para viverem o mundo fantasmagórico da bruxaria, a elas não lhes cabe a culpa. Pé de Marreco deu de ombros e continuou destratando as bruxas.

Os outros cinco camaradas da baleeira estavam apavorados com a presença do cenário dantesco que estava dentro da lancha, balançando-se sobre as ondas crespas e algodoadas num mar infernal, por causa da xingação aguda, picante e ultrajante que partia da boca do Pé-de-Marreco.

Então o camarada de nome Pedro Quintino, que era um homem que gozava de inatas e autênticas virtudes curandeiristas interveio.
- O vô fazê a minha obrigação na presença de vancês, que é a de desmascará o podê diabólico dessas égua que robaro a lancha, pra mo’de fazê estrapolias e desafiá o podê santo das santa benzidura.

A benzedura vacilante:
Pedro Quintino pediu que todos os camaradas pescadores da lancha dessem um nó na fralda das camisas e as vestissem pelo avesso. Também pediu que tirassem os tamancos dos pés e os empilhassem um por riba do outro. Agachou-se, traçou nas areias da praia, com uma faca de ponta aguda, uma cruz do signo de salomão e ordenou que todos os camaradas redeiros ali presentes se plantassem sobre a cruz desenhada na areia. Santarrou-se, foi até a pancada da maré, rezou a famosa e atuante oração contra o reino infernal da bruxaria e a coroou com um Creio em Deus Pai rezado de trás pra frente. Persignou-se quando terminou o trabalho espiritual.

O resultado esperado, que era o da quebra do encanto bruxólico e, consequentemente, do quadro sinistro e fantasmagórico que se fazia presente dentro da lancha não aconteceu. Quintino atemorizou-se e titubeou.

A real força da benzedura:
Um outro camarada da tripulação sabia rezar com muita sabedoria a oração das treze verdades e, só em pensar na oração, o temporal sinistro bruxólico tratou de amainar-se. O cenário dantesco e aterrador se desfez de dentro da lancha baleeira. A ventania amainou-se como que por encanto. A lancha, trazida pela maré, embicou na praia com uma caterva de mulheres bruxas desencantadas dentro dela, assustadas e envergonhadas, porque estavam nuas e seriam reconhecidas pelos tripulantes naturais da embarcação.

As bruxas:
As primeiras a serem identificadas foram: a mulher e a sogra do Pé-de-Marreco; depois a Demétria, uma velha fingida que se fazia passar por médica curandeira de expressão muito atuante contra o reino da bruxaria; e uma mulher muito gorda, cujo corpo se parecia mais com um salame vestido do que com uma pessoa de carne e osso. A Demétria era tia-avó do Pedro Quintino; a bruxa gorda era a sobrinha do Damião.

O desfecho:
Graciano da Ribeira, o mais idoso dos camaradas, apresentou-se com muito respeito para guardar a nudez delas, e o fez colocando as quatro mulheres nuas sentadas no fundo da lancha, envoltas na rede, com as pernas para debaixo dela, abrigando as partes vergonhosas, protegendo-as contra os olhares apetitosos dos outros camaradas.

O coitado do Marreco, quando viu a mulher e a sogra despidas do excomungado véu da bruxaria, transformadas em gente de argila humana crua, desenvolveu uma ideia pelos rendados piques do cérebro: que a própria mulher e a sogra eram as bruxas que matavam os filhos dele.

¹ Cascaes, F. O fantástico na Ilha de Santa Catarina. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2015. 272 p.