Duelo doutro mundo

Por Gunga Rodrigues

Não pense você que o mundo quimérico é só um mar de espinhos, onde todas as bruxas são amiguinhas entre si. Longe disso! Ciumeira, inveja e vingança também existem entre elas e não raro o pau come e as bruxas, principalmente as chefes, caem na “porrada fadólica”. Uma acirrada disputa de feitiços, quebrantos, descarregos e maldições que normalmente é vencida pela mais sabida. Quem já testemunhou uma dessas contendas, diz que é a coisa mais pavorosa de se ver...

E vejam essa: num tempo longínquo, lá na Lagoa da Conceição, chegou uma bruxa dos Ratones botando banca. Na verdade, Mariska veio de lá fugida, após sofrer os efeitos de uma armadilha montada para capturá-la, mas da qual conseguiu escapar no último instante. Se vendo ameaçada naquela comunidade, a velhaca bruxa resolveu montar seu bando em outra freguesia. Ela sabia que na Lagoa da Conceição viviam várias bruxas terrenas sob o fraco comando de dona Isalina. Com pouco esforço, ela achava que recrutaria essas bruxas para o seu novo bando.

Cheia dos contos de réis, Mariska, para bem se integrar na comunidade, distribuiu benesses para a Paróquia e Intendência. Também passou a ajudar os mais necessitados, logo se tornando grande benemérita. Isso lhe garantiu respeito e admiração, sendo a madame consultada e ter sua opinião considerada nas decisões comunitárias.

Isalina, que bem sabia das intenções da jaguara, trabalhava nos bastidores para manter a coesão de suas comandadas. Mas Mariska era agressiva e assediava sem parar as bruxas de Isalina. Vendo que a situação não se resolveria com diplomacia, Isalina se preparou para o pior. Mariska, acenando com uma falsa proposta de paz, chamou Isalina para uma conversa noturna no curral do Bigorna. Uma cilada! Isalina, que de tola não tinha nada, mandou Gerarda, sua fiel escudeira, disfarçada, na frente. Mariska, achando que era Isalina chegando, estuporou Gerarda, que caiu da vassoura. Quando viu que uma impostora se passava por Isalina, Mariska desapareceu. Isalina chegou furiosa ao curral do Bigorna. Restabeleceu as forças de Gerarda e bradou.

- Apareça, Mariska! Sei que táx aqui...

Uma mosca varejeira verde-metálica zunindo passou veloz por Isalina, que não perdeu tempo.

- Finis mutatio! – gritou a bruxa com o dedo em riste para o moscão.

Mariska apareceu no ar e precipitou-se rolando pelo chão do curral. Porém, rapidamente, sumiu da vista de Isalina, por entre as baias.

- Não adianta querê fugi, jaguara. Temo conta a acertá. O patrão qué algo de ti e isso darei a ele hoje - falava calmamente Isalina enquanto adentrava uma baia.

Um raio esverdeado, estralando feito um corisco, surgiu do fundo do curral em direção à Isalina, quando esta saiu da baia.

- Clausum corpus! – se protegeu Isalina. Uma abóbada alaranjada se formou instantaneamente e o raio ricocheteou em direção ao telhado, com um som de trovão que assustou as vacas do Bigorna.

- Ãhn, ãhn, ãhn, istepori! Táx tola, táx, sua marisquêra pestilenta mirolha?

Um ar de quebranto saiu em direção à Mariska, ofuscando sua visão. Outro raio corisqueiro veio em direção à Isalina, que se abaixou e o mesmo saiu estralando pelo laranjal ao lado. Isalina arrenegou-se e clamou:

- infinitum momentum!

Um silêncio absoluto se fez por tudo. O ar ficou parado e o tempo ficou suspenso. Isalina caminhou calmamente até os fundos do curral. Mariska, estava paralisada, já de vassoura à mão, pronta para fugir.

- Chega de me atormentá, candonguêra! Já que tu finge gostá de fazê caridade, vô te deixá bem boazinha. Anima nigra, vade in tenebras!

As mãos de Isalina, circundando a cabeça de Mariska, se iluminaram com uma intensa luz branca. Um raio vermelho saiu do topo da cabeça da bruxa paralisada e adentrou o solo, deixando uma fumaça de enxofre no ar. Ao receber o feitiço de caritas, Mariska estremeceu e perdeu seu ar de falsidade com que encarava as pessoas. Isalina desfez o feitiço do tempo suspenso e sumiu.

O Bigorna, que estava no curral dando trato às vacas e se escondera quando Mariska chegou, saiu do esconderijo ao perceber que tudo estava calmo. Incrédulo, encontrou a “ex-bruxa”, toda feliz, varrendo o chão do curral.

- Bas noite, seu Bigorna! Achei que esse chão sujo precisava era de uma boa duma varrida...

É mos quiridu, o que Mariska não sabia, é que Isalina tirara 10 com estrelinhas em latim, quando cursou o Liceu. E de feitiço, entendia tudo!