O boitatá da Ponta das Canas

Por Gunga Rodrigues

Boitatá – a cobra de fogo dos Carijós – parafraseando quem entende: m’boy – cobra + tatá – fogo. Esse ser fantasmagórico tem sua provável origem nas emanações de fogo-fátuo, comentado no post anterior. Mas, quando crianças, passando férias escolares em Canasvieiras, fantasiávamos algo bem mais assustador. Pra início de conversa, o bicho era um boi e não uma cobra. Aliás, quando me disseram que boitatá era uma cobra, custei a acreditar. O mito assustador de infância se revelando outra coisa... Mas não era um boi qualquer. Era um boi brabo, com olhos vermelhos de fogo, que corria pela praia, na pancada da maré, soltando fogo pelas ventas e aspergindo esguichos de água nas alturas.

Vamos brincar de boitatá? E lá ia a gurizada correndo a toda velocidade, na faixa que as ondas lambem a areia, chutando a água pra levantar respingos pra tudo quanto é lado... E sai da frente que lá vem ele! Isso mesmo, com boitatá não se bobeava: “se ficar o bicho come!”. A salvação, diziam, era riscar um círculo no chão, se colocar dentro e chamar a Luzia, pedindo para ela trazer a corda do sino da capela. Isso fazia o boitatá ir embora.

Mas para nós, famoso era o boitatá da Ponta das Canas. Uns diziam que ele era até manso - para um boitatá! - e que só ficava furioso mesmo no período da quaresma, quando começava a farra do boi. Nessa época, ele surgia de noite no costão do norte e, cuspindo fogo pelas ventas, corria por toda a extensão da praia. Nada de pescar siri na Páscoa!

E a mansidão desse boitatá tinha explicação. Segundo contavam, quando ele ainda era bezerrotatá, teria sido achado numa gruta pelo Zé Deolindo, um antigo pescador-lavrador daquelas bandas. O Zé Deolindo era como uma espécie de “Doutor Dolittle”, pois tinha o dom de reconhecer as necessidades dos animais, como se eles lhe falassem o que queriam. E assim, o Zé Deolindo cuidou com carinho do bezerrotatá. Levava trato até a gruta, enchia o cocho com água fresca e até um pouco de sal lhe dava. O bezerrotatá virou boitatá e se acostumou com o Zé Deolindo, que ganhava garupa no lombo do bicho e ia visitar parentes que moravam na praia da Ponta Grossa. “E por isso o bicho ficou ‘manso’! Mas não pense que por causa disso tu não precisa fugir dele, se ele aparecer na praia. Corre ligeiro porque tu não é o Zé Deolindo!”