Por Gunga Rodrigues
Vamos brincar de boitatá? E lá ia a gurizada correndo a toda velocidade, na faixa que as ondas lambem a areia, chutando a água pra levantar respingos pra tudo quanto é lado... E sai da frente que lá vem ele! Isso mesmo, com boitatá não se bobeava: “se ficar o bicho come!”. A salvação, diziam, era riscar um círculo no chão, se colocar dentro e chamar a Luzia, pedindo para ela trazer a corda do sino da capela. Isso fazia o boitatá ir embora.
E a mansidão desse boitatá tinha explicação. Segundo contavam, quando ele ainda era bezerrotatá, teria sido achado numa gruta pelo Zé Deolindo, um antigo pescador-lavrador daquelas bandas. O Zé Deolindo era como uma espécie de “Doutor Dolittle”, pois tinha o dom de reconhecer as necessidades dos animais, como se eles lhe falassem o que queriam. E assim, o Zé Deolindo cuidou com carinho do bezerrotatá. Levava trato até a gruta, enchia o cocho com água fresca e até um pouco de sal lhe dava. O bezerrotatá virou boitatá e se acostumou com o Zé Deolindo, que ganhava garupa no lombo do bicho e ia visitar parentes que moravam na praia da Ponta Grossa. “E por isso o bicho ficou ‘manso’! Mas não pense que por causa disso tu não precisa fugir dele, se ele aparecer na praia. Corre ligeiro porque tu não é o Zé Deolindo!”


