Por Gunga Rodrigues
(um causo ilhéu à moda de You shook me all night long – AC/DC)
Chico Corvina, pescador experiente das Terras do Desterro, é como chamam Francisco Gomes de Albuquerque e Olinda. O apelido remonta sua juventude, em que se debatia atrás de uma corvina para curar-lhe a tuberculose. Tanto insistiu que se curou. No alto dos seus 53 anos, já viu de tudo pelos mares. Já passou por borrascas, mas calmarias também. Tempos de fartura, tempos de miséria. Já cercou tainha e anchova, já pescou fundeado e com feiticeira. Achava que não veria mais surpresas, até sua velha baleeira dar problema insolúvel.
Sem poder perder a próxima safra de tainha, o Chico Corvina se viu atrás de nova lancha. Soube duma boa oferta nos Zimbros e, junto com o cumpadi Maneca, correu para lá. O barco parecia mesmo estar nos trinques, um colírio para os olhos. O motor possante e limpo, o casco bem torneado e conservado e a palamenta em dia, não deixavam mentir. Não encontraria outra lancha igual, lhe disse Maneca, e o Chico fechou negócio.
Embarcaram lá mesmo nos Zimbros e se debandaram para a Ilha, mesmo sob vento sul. E a lancha não negaciou. Parecia em êxtase no mar agitado, vibrando nas ondas tremidas. Exigindo do Chico tudo que ele sabia do navegar, quase lhe tirando o fôlego, e sacudindo-o todo, a viagem inteira.
Chico e Maneca finalmente chegaram à Armação. Ele, satisfeitíssimo pela compra que fizera. Não esperava a hora de por a lancha de novo na água, para testá-la na pesca. E a oportunidade não demorou. Reuniu os camaradas na boca da noite e partiram para o cerco. No mar agitado a nova lancha do Chico varava as ondas e não dava bordo pra ser virada. Nas águas tremidas, sacudiu-os todos a noite inteira. A pesca foi das boas e outras pescas sucederam. A lancha do Chico sempre procurando o mar agitado e sacudindo-o todo, a noite inteira.
Ao final da temporada, o Chico Corvina resolveu dar um trato na lancha e contratou o Beiça para fazer calafetagem e nova pintura. Qual não foi sua surpresa ao ser chamado, numa manhã ensolarada, para ver um negócio esquisito no barco. Ao raspar a tinta da quilha da proa, o Beiça achou uma mancha na madeira, que mais parecia um pequeno lagarto estampado. O Chico nem acreditou, mas estava diante da lendária “Lagartixa”, a baleeira sumida do finado Guimarães. Aquela que diziam ter vida própria e ficar agarrada aos penedos que cercam o Arvoredo. A Lagartixa agora era sua, toda sua! Exigia dele e ainda pedia mais, sacudindo-o todo, a noite inteira!

