Por Gunga Rodrigues
(um causo ilhéu à moda de Nothing Else Matters – Metallica)
Um tributo a Virgílio Várzea
Dizem
que amar uma bruxa é a perdição - a menos que ela te ame também. Se ela
não te amar, fará gato e sapato de ti. Mas, se ela te amar, então terás
o céu na terra. E foi isso que viveu o Tenóro da Jurema.
A Jurema, coitada, era meio que um oposto à ele. Passou por umas enfermidades na infância, que lhe deixaram pálida e franzina. Porém, era uma moça bonita, daquelas mais belas açorianas. De saúde frágil, vivia meio reclusa em casa e isso lhe rendeu certa fama de bruxa. Mas, nada disso importava ao Tenóro. Ele desprezou os fuxicos e se casou com a Jurema, que também lhe queria muito.
Iniciaram a vida de jovem casal na comunidade. O Tenóro labutando na pesca e a Jurema cuidando da casa. A despeito das desconfianças alheias e maledicências, levavam a vida a seu modo. A prosperidade veio e, com ele, a fartura. Jurema até ganhou mais saúde. Ganhou mais vida também. Estava grávida e não tardaria para o primeiro rebento chegar. Tenório estava muito feliz e, em meio a essa felicidade, chegou uma proposta irrecusável para servir embarcado numa traineira. Era a oportunidade para fazer um “cash” para o enxoval do bebê. Jurema não gostou muito da ideia de ficar sem o seu Tenóro ao lado. Um mau pressentimento a atormentava, mas Tenório a convenceu. Seria por pouco tempo. Antes de partir, Jurema entregou a Tenório um amuleto, que ela mesma fizera. Um amuleto para protegê-lo de todos os perigos. Tenório, crente na sua fé, relutou, mas por fim pendurou o amuleto no pescoço. Nem que fosse só para sossegar as aflições de sua amada. E lá foi Tenóro à capital, embarcar para a pesca.
Confiando em seu coração, Jurema passou a ir todas as tardes à praia. Não queria saber o que diziam, não queria saber o sabiam. Acreditava que Tenóro chegaria pelo mar e mais nada importava. E Tenóro voltou. Chegou na baleeira do China, quando este regressou do Pantano. Vindo de pouco em pouco pela costa, Tenóro chegara ali. O amuleto lhe protegera. Deu-lhe um tronco flutuante quando a traineira soçobrou. Levou-o a pescadores riograndenses, que o trouxeram até Laguna. De Laguna à Imbituba, depois à Garopaba. Dali à Pinheira e em seguida ao Pantano. Em seu trajeto só pensava em sua Jurema, não importava quão longe estivesse. Confiava no amuleto e isso era o bastante.
E na alva Praia dos Ingleses, Jurema e Tenóro se reencontraram. Juras de amor eterno renovaram. Para sempre confiando em quem eram e nada mais importando.
Nothing Else Matters - https://www.youtube.com/watch?v=tAGnKpE4NCI
