A baleeira Lagartixa

Por Gunga Rodrigues

Essa eu ouvi lá pras bandas da Barra da Lagoa, quando aquela praia era freqüentada quase que só pelos camaradas da pesca.

Diziam que, quando Dias Velho aportou por essas terras, junto na comitiva estava o Chico Mineiro. Natural das terras Alterosas, o Chico portava um calango, que era seu animalzinho de estimação.

Os calangos das Minas Gerais são como grandes lagartixas de couro duro, que sobem pelas paredes verticais dos muros e casas coloniais. Muito ariscos, são velozes e furiosos!

A mando de Dias Velho, o Chico Mineiro e outros camaradas partiram numa excursão de exploração, para demarcar a Lagoa da Conceição. O Chico, inseparável de sua companhia, levou o calango. E não é que o bicho fugiu... Num momento de distração do Chico, o calango pulou numa árvore e sumiu no mato. O Chico Mineiro muito lamentou a perda de seu animalzinho de estimação e acabou partindo para a terra natal, para arrumar outro calango que preenchesse o vazio deixado pelo anterior. Coisa de mineiro!

Muitos anos depois, bem depois dos açorianos já terem colonizado os recantos ilhéus, tombaram um grande garapuvú vermelho no sopé do Morro do Padre Doutor. Tão grande era a tora, que o Armênio Guimarães, proprietário legítimo da árvore centenária, encomendou ao Maneca Canoeiro uma lancha de borda alta. O Maneca era exímio canoeiro e sabia talhar canoa de um pau só como ninguém, pois aprendera e desenvolvera sua arte com os indígenas que, desde tempos imemoriais, talhavam canoas caiçaras.

A lancha já ia bem adiantada, quando o Maneca resolveu refinar o entalhe da proa. No que lascou a madeira, percebeu no corte da quilha alta, a forma escura de um pequeno lagarto na madeira, tal qual uma grande lagartixa. Achou aquilo bem peculiar e manteve o desenho a vista, apenas envernizando essa parte da embarcação.

Não deu outra... Quando o Armênio recebeu a baleeira pronta, batizou-a de “Lagartixa”. E a lancha era mesmo uma lagartixa no mar. Não tinha tempo ruim para ela. Galgava com rapidez as grandes ondas de mar revolto, sempre aprumada, nunca dando a borda para ser virada. O Armênio ficou mesmo muito satisfeito com sua baleeira Lagartixa.

Mas lancha tão famosa assim não passa incólume. Numa noite de temporal a Lagartixa do Armênio foi roubada, sem que ficasse vestígios da ação dos(as) larápios(as) na areia da praia ou no rancho. O Armênio morreu jurando que bruxas é que tinham roubado sua baleeira querida. Mas isso ninguém nunca descobriu.

O que se sabe, desde aqueles tempos, é que pescadores, passando de noite pelos penedos que se interpõem entre o Arvoredo e o Continente, juram de pés juntos terem visto uma baleeira garrada na pedra, feito uma grande lagartixa a receber o afago das ondas do mar. Outros dizem que já viram, também nas horas mortas, tal baleeira trepada num dos Moleques do Sul. Até na Ilha do Badejo a baleeira Lagartixa já se esquentou ao sol. Porém, é para poucos a sorte de ver a baleeira Lagartixa do Armênio, que ganhou a vida quimérica de um calango das Minas Gerais, aprumada num grande rochedo no mar do Desterro.