As bruxas e o noivo de Cascaes¹
Apanhado de pérolas do folclore ilhéu
Por Gunga Rodrigues
O cenário:
Frumenço da Leocada era tão feio,
mas tão feio, que lhe custou encontrar uma deusa que o aceitasse como esposo.
Todas as mulheres o rejeitavam e até fugiam de conversar com ele ou, até mesmo,
olhá-lo. Nem os rapazes do seu lugar o queriam como companheiro de passeio. Os
donos de pescaria não o aceitavam para trabalhar no puxamento de redes de
arrastar, pescar com espinhéis ou tarrafas porque viam na feiura dele um mal de
azar que podia atrapalhar na pesca. Nem no trabalho roceiro o coitado era
aceito.
Um tio seu veio visitar e levou o Frumenço para a cidade, onde poderia arrumar um emprego. Na terra alheia foi feliz, pois até ganhou dinheiro que deu para comprar uma casa. E daí já pensara em casamento enquanto estava moço porque sabia que era feio, e feio e velho, falava para os seus botões, é rejeitado por toda mulher casadoira.
Numa festa de São João encontrou-se com uma velha com duas filhas que estavam assistindo à alumiação e que puxaram conversa com ele. Elas indagaram o nome dele, onde morava e trabalhava, se era casado e outros ditos. Ele também indagou tudinho da vida delas, os nomes, onde moravam e mais mimos. Depois ele falou pra elas que possuía uma casa e pensava em se casar breve, pois morava de favor com o tio.
O Cupido acerta o Frumenço:
Embora ele houvesse notado nas
duas moças um comportamento muito desajustado, uns corpos meio disformes, com
ombros muito largos e quadris estreitos, um buço de furar manta de tear manual,
fala rouquenha, os buracos do nariz entupidos de cabelo grosso, simpatizou
muito com uma que usava o chamador de Maria e que era conhecida pelo povo do
lugar como Maria Quebra Pinico. A outra era conhecida como Rosa de Catacumba, e
a velha, como Rafaela Pé de Ganso.
O feio, apaixonado, não pensava em outra coisa a não ser na Maria. No trabalho, nas refeições, no sono enfim, estava preso na gaiola de cana da Maria. Pensou em remeter-lhe uma carta, depois um bilhete, em ir na casa dela e apresentar-se como namorado. E assim pensando, veio-lhe a ideia de mandar o coração de pão por Deus para ela. A tia sabia fazer coração de pão por Deus muito bem feito. Ele comprou um envelope, colocou o coração de pão por Deus dentro com uma dedicatória toda especial para ela:
Lá vai o meu coração
Nas asas de um tico-tico
Pra pedir o pão por Deus
À Maria Quebra Pinico.
A reação à proposta:
As três mulheres ficaram
possessas, principalmente a velha, que achou o Frumenço o diabo mais feio que
apareceu neste mundo tresloucado, maduro e azedo, depois que um conhecido leu a
dedicatória que o atrevido mandou para a filha. Mesmo assim mandou recado pro
rapaz vir conversar.
Dentro daquela noite, a velha urdiu um plano diabólico bem engendrado, que apresentou ao Lúcifer. Ele aprovou, e elas o colocaram em ação. Combinaram que, no dia seguinte, quando o feio apaixonado viesse, o receberiam com muita gentileza bruxólica, para que a Maria Quebra Pinico enjambrasse um noivado simbólico com ele, porque assim ela poderia vingar-se do apelido feio com que ele a tratou quando lhe enviou o coração de pão por Deus.
A doce ilusão:
O Frumenço preparou-se bem, tomou
o primeiro banho corporal de toda a sua vida no tanque de lavar roupa, pôs, por
riba do esqueleto, camisa, ceroula, calça, paletó e sapatos novos, untou bem os
cabelos com brilhantina, areou os dentes com carvão moído, engraxou os sapatos
com carvão e banha de porco, raspou a barba e se mandou para a casa das bruxas.
– Pos é! – falava a Quebra Pinico para o Frumenço. – Eu me agradê munto de ti pra mo’de sês mo marido. Si qués aceitá, eu quero tombém, pro mo’de que a minha mãi acha que eu e a Rosa já ’temo no ponto certo de arrumá marido pra vivê sem as custa dela. Eu te acho um rapaz munto alegante e bunito. Home ansim qui nem tu não é quarqué moça casadoira que cunsegue arrumá. Nós três gustemo munto, mas munto memo, do bilhete de pão por Deus que tu mandaste pra mim. Eu não mandê tu entrá pra dentro de casa proque aqui, neste lugá, não é usuáli fazê isso. Este povo daqui são munto arreparadô da vivença dos otro. Só pricuro memo é de fazê o máli pro seu próximo.
– Maria! – falou o Frumenço – Eu já tenho casa c’a mobiia toda dentro; agora só farta memo é a muié, mo’de compretá o resto. A casa é minha memo; custô o meu suóri no trabaio do dia a dia. Por isso eu quero arrumá uma muié que seje bem trabaiadera, boazinha, que não viva pindungando na casa dos vizinho, que saba fazê o cumê, lavá ropa suja, fazê sabão em casa, custurá, trabaiá na roça. Enfim, que saba ajudá o marido. É isso memo.
A vingança bruxólica:
– Bem, agora sim – falou a velha
para as duas filhas – o mo plano que arquitetê foi confrimado e aprovado pelo
nosso chefe, o Bode Cheiroso². Amanhã o feio vai drumi na casa dele. Nós vambo
pidi o encanto pelo avesso: em vez de sê por riba do silvado é por debaxo; em
vez de sê por debaxo do teiado, é por riba. Daí nós poisemo im riba do teiado,
quebremo teia e joguemo os caco por riba dele; inchemo os pote de mijo; sujemo
dentro das vasiia de botá cumê; espaiemo sujidade de bicho de tudo que é
culidade dentro da casa, dentro do poço d’ele tirá água pra bebê; esvaziemo as
marcela dos trabicero, tiremo o capim do corchão e joguemo no terreno dele;
arranquemo todas as pranta do quintáli e da roça e garremo pra casa ente do
galo preto cantá³, proque já ’temo vingada do distrate que ele mandô pra ti
naquele biiete sem-vregonha.
A quebra do fado:
Mas aconteceu que o Frumenço
acordou no exato momento em que elas iam se retirar. Ficou impressionado com o
barulho que elas estavam fazendo em riba do telhado da casa e, como pensou em
assombração, colocou na boca, atravessada, uma faca de ponta. Não houve
dúvidas: fulminou o estado fadólico, e as três mulheres se desencantaram. Abriu
a porta e deparou com um quadro estarrecedor em riba da casa dele: três
mulheres nuas com as vergonhas expostas à natureza, uma já gasta pelo consumo
que o defunto marido efetuou nela – a velha – e as outras duas à espera de consumidores,
a Maria e a Rosa.
As três cobriram as duas vergonhas de cima com o cabelo, que usavam comprido, e a debaixo, com as mãos espalmadas. O Frumenço estava beirando os trinta anos e nunca havia posto os olhos em riba de um corpo humano feminino. Nem naquela noite, pois elas se cobriram! Elas estavam vingadas e o noivado desmanchado.
¹ Cascaes, F. O
fantástico na Ilha de Santa Catarina. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2015. 272 p.
² Lá em casa,
quando nós saímos do banho e chegávamos perto do Pai, ele dizia “lá vem o Bode
Cheiroso!”
³ O canto do galo
preto, na hora certa, é sinal de firmeza e, portanto, anula o fado bruxólico no
momento em que o galo o manda para o éter.
