Por Gunga Rodrigues
No tempo que eu era guri pequeno e só andava na cidade agarrado na saia da mãe, lá pelos idos da década de 1970, o carnaval desterrense tinha uma atração singular - o desfile de carros alegóricos. Sim, também tinha desfile de escolas de samba, mas sem aquela pujança que se veria na década seguinte, de 1980.
Lá em casa, nós sempre íamos ver os carros alegóricos e, realmente, era bonito de se ver. As agremiações preparavam carros grandes, torneados e enfeitados com muita lâmpada e papel celofane colorido, onde lindas bailarinas dançavam ao som das bandinhas. Também havia carros que faziam evoluções, abrindo abóbadas e subindo torres, erguendo alto as bailarinas. Eram os carros de mutação. Duas agremiações maiores sempre vinham com os carros mais belos e disputavam o título, a Granadeiros da Ilha e os Tenentes do Diabo.
Mas dizem que teve um carnaval, que não testemunhei, em que a Trevo de Ouro trouxe dos “esteites” a Samantha Elliot, para fazer a diferença e levar o tão sonhado campeonato. A Samantha era uma americana espalhafatosa de Nova Orleans, que inovaria no desfile dos carros alegóricos. Ela chegou no aeroporto Hercílio Luz, a bordo de um Electra da Varig, e causou quando apareceu na escada de desembarque. “É bruxa!” foi o pensamento coletivo de todos, ao ver aquela mulher alta, de pele clara, com largo sorriso no rosto, cabelos pretos longos e escorridos e trajando um vestido roxo psicodélico. Os espiões da concorrência correram a alertar os chefes: “a Trevo de Ouro contratou uma bruxa para levar o título!” E todo o aparato de espionagem foi posto em ação. Mas digo que em vão. A Samantha soube esconder bem seus segredos.
No dia do desfile, a Trevo de Ouro era puro mistério. Com o tema “encantos e feitiços”, a agremiação iniciou a apresentação com o carro do fogo-fátuo. Decorado em “cinquenta tons de cinza”, parecendo uma noite escura, o carro tinha uma série de espelhos, que refletiam luzes azuis e criavam, no centro da plataforma, um holograma de luz dançante, quase igual a um fogo-fátuo de verdade. Era impressionante! E o tal holograma saía do carro e passava perto dos espectadores, deixando vários assustados.
Depois desse carro, veio o do lobisomem, onde uma grande lua cheia se abria e saía de dentro um caboclo alto vestido de lobo, bem tenebroso. Quando as luzes do carro se apagavam, para a troca de tomada no poste, o lobisomem uivava alto, de causar arrepios.
Na sequência, vinha o carro do boitatá. Ele era de chassi oval, com uma calha cheia de água na borda. De tempos em tempos, saía de uma gruta montada no final do carro, um boi mecânico de olhos vermelhos, soltando fumaça pelas ventas. Então o boi corria pela calha esguichando água para cima, como fazem alguns jet skis hoje em dia. Não por menos, também causou espanto e temor na galera que assistia.
O quarto carro era o da rasga-mortalha. Uma enorme coruja vinha na frente do carro e, nos momentos de evolução, ela abria as asas e soltava seu piado assustador. Depois, a barriga se abria e lá de dentro saíam bailarinas vestidas de bruxa. Ai, Jisuis!
Fechando o desfile, o carro da rainha bruxa. O maior e mais decorado de todos. Entrou na avenida em estilo tradicional, rebuscado e bem iluminado, mas era um carro mutante bruxólico. No final do carro se formava um rancho de pescador. Depois as portas se abriam e, lá de dentro, saía uma baleeira toda enfeitada, com oito bailarinas bruxas. Seis nos remos de voga, uma na proa e a própria Samantha, como rainha-patrão no castelo da popa. Toda a molecada pequena que tava assistindo se apavorou. Umas correram para o colo das mães, outras abriram o berreiro. Foi um reboliço só! Teve neguinho se persignando, outros beijando o breve e alguns puxando uma figa de guiné dos bolsos. Um desespero!
A comissão julgadora ficou dividida. Uns jurados gostaram, outros nem tanto. Ao final, a Trevo de Ouro não levou o campeonato por dois décimos. A Samantha Elliot, vindo de fora, não atentou que não se podia saber quem era a bruxa, sob pena da quebra do fado. Quando a platéia a identificou como patrão na baleeira, ela perdeu o encanto, ficou nua no meio do desfile e teve que se esconder dentro do castelo da popa, quebrando a harmonia do carro alegórico – e perdendo os preciosos décimos da sonhada vitória. Uma pena!