Balanço bruxólico de Cascaes¹
Apanhado de pérolas do folclore ilhéu
Por Gunga Rodrigues
O cenário:O compadre Manuel Pereira subiu o Morro da Lagoa e, com os filhos, derrubou um pedaço de mata virgem, queimou-a e preparou o terreno pra plantar mandioca. Na face da mata, pouparam a vida de uma grande árvore que possuía um grosso cipó enrolado em si, o qual, ao alcançar as ramagens, deixava cair um seio de formato oblongo, que oferecia às vistas humanas um gostoso balanço natural. Ao pé da grande árvore derrubaram e deitaram outra árvore oca, conhecida como tanheiro. Muitas pedras também repousavam ali. Seu Manuel e os filhos aproveitavam a sombra debaixo da árvore, onde faziam comida em panelas de barro e as guardavam ali, juntamente com as ferramentas que usavam no trabalho da lavoura.
De uns dias pra frente, quando, cedinho, retornavam ao trabalho roceiro, observavam que as ferramentas e louças deixadas na véspera em lugar certo apareciam sempre dispersas. Também, de manhã, quando lá chegavam, sentiam cheiro de querosene que saía de dentro do tronco oco do tanheiro. Desconfiados de que aquela contínua provocação não era praticada por homens de argila crua, passaram a vigiar, com muita cautela supersticiosa, a roça, que começara a se tornar mal-assombrada.
Os parentes, vizinhos e conhecidos, após terem ouvido a estória contada por seu Manuel Pereira e seus filhos, foram unânimes em afirmar, categoricamente, que aquilo era trabalho de deboche de velhas bruxeiras que vivem pousadas por riba de velhas figueiras.
Desvendando o
mistério:
Numa noite de
sexta-feira, no dia 13 de agosto daquele ano já tão distante, Manoel &
Filhos tiveram a desdita de constatarem, in loco (na roça), um dos quadros mais
sinistros urdidos por mulheres bruxas, que vivem na Terra, somente para
maltratar a vida do coitado bicho-homem, que não faz mal a ninguém nem a nada
do que o cerca.
Era um quadro tétrico. Viram várias lamparinas metamorfoseadas em seres com formas humanas, dançando surungamente. As árvores mostravam suas raízes metamorfoseadas em patas de vários animais, inclusive as de homens. No balanço do cipó da grande figueira balançava-se cinicamente uma bruxa metamorfoseada em roda de carro de bois e em partes do próprio boi. Dentro das ramagens da velha figueira, outros elementos metamorfoseados também se achavam presentes, inclusive uma coruja com o observador filosófico, caboclo ilhéu. As pedras apresentavam atitudes de exorcismo e piedade.
Apavorados por verem tanta maldade terráquea contra o coitado homem de argila crua, meteram a viola no saco do desespero e mandaram-se para casa. Durante todo o tempo, depois que viram o mundo objetivo do sobrenatural em ação demoníaca, fadórica e bruxólica, não mais pensaram em outra coisa.
As conversas do
bucho de pescada e necessárias precauções:
Toda a Lagoa de
Nossa Senhora da Conceição teve conhecimento dos fatos, porém contados com
força de detalhes crespos e, às vezes, até meio eriçados por pessoas que gostam
de colocar a vida das pesoas acima das nuvens enrugadas da poeira humana.
Famílias que possuíam crianças trataram de chamar benzedeiras e benzedores para exorcizarem-nas; colocaram rosários feitos com nove dentes de alho vestidos, enfiados em linhas vermelhas, e pendurados no pescoço delas; espalharam cisco de três marés e mostarda embaixo dos berços de criancinhas tenras; acenderam velas bentas na Sexta-feira Santa nos quartos de dormir delas e depois rezaram o Creio em Deus Pai por riba dos berços de trás pra frente; taparam todos os buracos das fechaduras das portas com cera virgem de abelhas; queimaram palha benta do Domingo de Ramos dentro de casa, fizeram cruz com cana-do-reino, também recolhida na Sexta-feira Santa, antes de o sol ser parido, e as colocaram entre caibros e ripas do teto da casa; colocaram atrás das portas, em vasos, alecrim e arruda; sobre todos os portais espalharam cinza do borralho e, atrás de cada porta, com tinta preta, desenharam uma cruz de sino-saimão.
O caboclo
destemido:
Seu Manuel
Pereira tinha um compadre, que morava lá pras bandas da Costa da Lagoa, que não
tolerava, de jeito nenhum, os procedimentos satânicos das mulheres bruxas.
Quando, lá na terra dele, a notícia correu célere nas manchetes bucais da população
irrisória do lugar, ele montou no seu cavalo alazão e veio até a casa do Manuel
pra saber com precisão da veracidade de tal notícia bruxólica. Depois de confirmada
a verdade verdadeira dos fatos indagou o compadre:
- Ué! e o que foi que tu fazeste, mo cumpadre Manuéli? Capaz inté, home de Deus, que tu ainda botaste trato nos miolo da cabeça pra mo’de favorecê a vida mundana dessa caterva de muié mula sem cabeça que não têm um poco de vregonha na cara e que veve em riba desta bola de barro só pra mo’de consumi a vida dos so simiiante.
– Bão, cumpadre Zeferino, isso tudo que vancê acabô de dizê da boca pra fora não é bem ansim não. Mo difunto pai, que Deus tenha ele lá, que eu não ’tô chamando ele aqui, sempre dizia pra nós que cardo de galinha magra e costela não fage máli a ninhum cristão que sofre do estamo. E ainda mais, cumpadre Zeferino: tudo foi Deus quem fêgi; o home, senhôri, não faz nada, nem um grãozinho de areia.
– Cumpadre Manuéli, eu vim inté aqui na vossa casa pra mo’de vancês me levá lá im riba do roçado. Eu tenho munta vuntade de vê de perto o táli balanço daquelas canaia desavregonhada mula sem cabeça que são enganaderas dos marido com os propros cumpadre. Oia, cumpadre Manuéli, não é à toa que no céu da boca delas nasce um dente canino.
E lá foram os compadres pr’o roçado. Lá o Zeferino indagou porque o Manuel não passou o facão no balanço, e este, muito supersticioso lhe disse que aquilo não era coisa terrena e nisso não mexia.
A imprudência do
Zeferino:
– Cumpadre
Manuéli, a sua conversa ’tá munto certa, eu acardito munto no que o sinhôri diz
da boca pra fora, como inté, tombém, arrespeito munto. Agora vô pidi licença
pra vossa mecê. O sinhôri dexa eu passá o facão naquele mardito balanço?
E assim procedeu. Tirou o facão da bainha e, com um corte certeiro, atingiu o centro do cipó que formava o balanço. Após o corte fatídico e impensado, as feridas abertas nas extremidades do cipó, em vez de soltarem seiva, soltaram faíscas de fogo bem vermelhas, assim como sangue. O Manuel Pereira ficou assustadíssimo, rubro como lacre, tremendo que nem vara verde, mas falou:
– ’Tá vendo, so cumpadre Zeferino, isso não é cosa da Terra! Cipó sortá fogo qui nem esse que quema as roça das nossa coivara, não é memo? Nós ’temo vendo que não é cosa da Terra.
– Quáli nada, sinhôri – retrucou o Zeferino –, este cipó deve sê é parente dos boitatá das mata deste brejão da Lagoa da Conceição.
– Antão, cumpadre Zeferino, o sinhôri acha que boitatá é cosa desta Terra que nós vivemo?
– Cumpadre Manuéli – tornou o Zeferino –, o serviço ’tá feito, eu vô pidi licença a vossa mecê pra mo’de descê, proque dexê o mo cavalo amarrado na cerca na frente da vossa casa, pra banda de fora da rua.
– ’Tá munto bem, cumpadre Zeferino, licença o sinhôri tem, mas eu e os mo rapaze vamo cová terra mo’de prantá rama de mandioca, que já temo ela cortada desde tresantonte.
– Bão, inté logo, cumpadre Manuéli.
O infortúnio do destemido:
O Zeferino meteu
o facão na bainha e tocou o pé no caminho de volta para a casa do compadre, a
fim de apanhar a sua montaria. Ao se aproximar de uma cerca que protegia as
roças do seu compadre, ele precisou, para passar, retirar uma vara da porteira.
Quando o fez, caiu desmaiado na terra, sem que por ali perto houvesse a
presença de alguém para socorrê-lo.
Ao pôr do sol, quando o Manuel mais os filhos voltaram para casa, depararam com o Zeferino esticado no chão, que nem um gambá surrado, com os pés, as mãos e a cara crivados de manchas roxas como amora madura. Tal coisa havia sido praticada pelas bruxas que frequentavam dentro da noite os deleites fadóricos do balanço natural da roça do Manuel Pereira. Por riba das pontas dos moirões da cerca, havia corujas pousadas e, de vez em quando, a presença de grandes morcegos voando em disparadas frenéticas, em rasgos de rasga-mortalha, num desafio ao poder efêmero do homem de argila humana.
O Manuel, ajudado pelos filhos, ajuntou o Zeferino e colocou-o dentro do carro de bois que estava guiando e assim desceu ribanceira abaixo como Deus era servido e o carro de bois sacudido. Chegaram em casa, a trancos e barrancos, com o Zeferino desmaiado e sem fala, que nem um boneco de cera virgem. Depois de contarem o ocorrido aos familiares e vizinhos, resolveram chamar a médica de sítio, benzedeira-curandeira, a sinhá Marculina do Joronço. Ela era uma benzedeira de fama ilhoa e conhecedora profunda dos negócios invisíveis lá de riba do alto.
A benzedura:
Quando a Marculina
recebeu o chamado, atirou as roupas que estava lavando na pedra do lavador,
calçou as chinelas, enleou o xale negro por riba da cabeça, foi ao quintal e
recolheu galhos de arruda, de alecrim, de alfazema, meteu-os dentro de uma cesta
de folhas de taboa, junto com as ferramentas cirúrgicas milagreiras que ela usava,
e plantou os pés no caminho.
O Manuel Pereira tratou de introduzi-la no quarto onde o Zeferino se encontrava esticado em riba de uma esteira, bem de remolho. Ela agachou-se, levou as costas das mãos nas faces do Zeferino, crivadas de autênticas petéquias ilhoas fadóricas, apalpou-lhe os pés pra sentir-lhe o grau de temperatura, deu-lhe um pedilúvio com água, cachaça, sal e vinagre e desatou-lhe os cordões das pernas das cerolas. Meio cansada, levantou-se, indagou a ocorrência dos fatos e diagnosticou: “É empresamento por vingança bruxólica cipoadamente balançada.”
Recomendou em seguida aos familiares de Manuel Pereira: “abro todas as porta e jinela, se coloque todos no centro da casa, ou na rua, que vô exorcizá esse tureba que andô brigando a facão c’as cosa espirituáli dos otro praneta. Mos santo fiio, as muié bruxa que atacaro o Zeferino lá de baxo da portera são espirituálie não formada aqui nas academia desta Terra. Nos oio das minha oração, eu vejo elas toda mitida no coro dele, me espiando, ansim memo qui nem caranguejo do buraco do banhado espiando a presença do bicho-home. E digo mági pra vancês: a situação dele é munto grave, tanto do corpo quanto d’arma. Eu não garanto a cura dele não, mos fiio! Mági não custa nada exprimentá, não é vredade?”
Ela abriu a cesta, apanhou os ramos das ervas e as ferramentas cirúrgicas milagreiras que estavam consigo e deu início à operação rezadeira:
“Treze raio tem o
Sóli
treze raio tem a
Lua,
sarta diabo pro
inferno
qu’esta alma não
é tua.
Tosca marosca,
rabo de rosca,
vassora na tua
mão,
reio na tua bunda
e aguiião nos
teus pé.
Por riba do
silvado
e por baxo do
teiado!
São Pedro, São
Paulo e São Fontista
por riba da casa,
São João Batista.
Bruxa
tatarabruxa,
tu não me entres
nesta casa
nem nesta comarca
toda,
por todos os
santos dos santos.
Amém!”
Mas o Zeferino, nem conta nem caso. Não tugia nem mugia. Diante do caso tão sinistro que se apresentou, a benzedeira chamou o Manuel Pereira e pediu-lhe que fosse arranjar um punhado de folhas de pessegueiro, erva-de-bicho e um pouco de mostarda. Ela tomou as folhas e a mostarda, socou-as e misturou-as com sabão virgem derretido, para obter um emplastro, que colocou nas solas dos pés do Zeferino. Nada de resultado satisfatório, pois o Zeferino não reclamou, nem queimou, nem sequer calejou. Diante do fracasso, ela tentou novo assalto contra o reino da bruxaria. Apanhou um monte de algodão, colocou fogo e o queimou nas fossas nasais do Zeferino. Nada! O Zeferino não cheirava, não lambia, não grunhia, nem piscava, nem, tampouco, mordia. Nova tentativa. Mandou botar uma brasa viva dentro de um pouco de água, abriu a boca do Zeferino e despejou uma colherada pela goela abaixo. Porém, sem resultado, pois o Zeferino não reclamou nem de queimadura nem de friagem.
A mulher do Manuel apresentou-lhe água benta recolhida na Sexta-feira Santa, antes de o sol ser parido. Ela tomou um instrumento cirúrgico vegetal, molhou-o na água benta e deu início a mais uma operação cirúrgica espiritual: benzer o Zeferino contra o pesadelo. Persignou-se e começou a oração da benzedura:
“Pai Nosso, João
Cantero,
bem me disse São
Mateus
que eu andasse
onde quisesse
que medo eu não
tivesse
nem da sombra,
nem da lomba,
nem daquela mais
pesada,
que tem as palma
das mão furada
e as unha
entravada.
Amém!”
Terminou a oração, mas o Zeferino não via, não ria e não grunhia. Desanimada já um tanto, por haver esgotado todo o manancial precioso da sua medicina curandeira espiritual, tratou de descansar um pouco em riba de uma cama marquesa que estava no canto da sala. Nesse meio tempo, a boca da noite veio, engoliu e triturou todo aquele dia tão fatídico para ela.
Num repente, quando se aproximavam as horas mortas, o Zeferino acordou do seu sono bruxólico e começou a dar gritos meio lancinantes: “’Tô no balanço! ’Tô no balanço! ’Tô no balanço, lá im riba do morro!...”
Todas as pessoas da casa atenderam, muito curiosas, às palavras dele e correram para espiar a árvore do balanço lá no morro. De fato, viram surgir, sobre aquela mata, um fogaréu que parecia estar queimando tudo o que lá se encontrava.
Eis o resultado de tudo: o Zeferino não havia pago o aluguel da obediência para com a Terra e, por isso, ela mandou a Libitina servir-lhe a taça do despejo com o néctar da morte.
¹ Cascaes, F. O fantástico na Ilha de Santa Catarina. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2015. 272 p.