Aroeira, essa esquecida

Por Gunga Rodrigues

Se formos pesquisar nos alfarrábios botânico-bruxólicos da Ilha, veremos que, sem dúvida, a figueira é a planta mais citada. Mas não é qualquer figueira, muito menos aquela lá do Estreito que, ultimamente, anda em baixa! Trata-se da figueira-de-folha-miuda, aquela que Cascaes informa ser palco de reuniões e convenções bruxólicas, onde as “mulheres bruxas dançam seus bailes luciferianos em chamas ardentes”. A árvore que não se deve plantar perto das casas, pois leva suas raízes para debaixo dos alicerces, provocando penúrias na vida física e monetária das pessoas que moram nela. Aquela que também não se deve passar por riba das raízes palustres, pois dá azar. Em Florianópolis, muito cuidado ao circular pela Praça XV!

Contudo, outra planta, apesar de pouco lembrada, não fica muito pra trás - a aroeira! Só pra começo de conversa, vegeta na beira da praia e jamais cresce reta e altaneira. Muito pelo contrário, seus ramos são todos tortuosos e a árvore fica anã, como se forças ocultas a acorrentassem e impedissem de alcançar alturas maiores. Afora isso, como boa Anacardiaceae, é rica em óleos e resinas um tanto irritantes, que fazem com que você não fique muito tempo perto delas. Nem as epífitas, que abundam nos ramos das figueiras, suportam as aroeiras. Para finalizar, a árvore produz umas baguinhas vermelhas, lembrando gotas de sangue espalhadas pela copa. A espécie é tão punk, que algumas pessoas, sensíveis às variantes mais pestilentas, desenvolvem uma forte alergia; algo semelhante àquela causada pela sua parente, o bugreiro.

Aroeiras antigas existiam na Praia do Meio, em Coqueiros, bairro de minha segunda infância e juventude - algumas acho que ainda estão por lá, na hoje Praça Governador José Boabaid... – Sombreavam os ranchos de pescadores e muito que subi nelas, inclusive com intuito de colher baguinhas, para alimentar meu sabiá-laranjeira. Pareciam árvores inermes, mas que, na verdade, guardavam segredos de vidas sobrenaturais que por elas andavam, ou melhor, pairavam! Contou-me certa vez o Marimba, pescador daqueles ranchos, que numa noite de lua cheia, testemunhou um encontro duma trempe de misteriosas senhoras no alto dos galhos. Dizia ele que as madames flutuavam por entre a ramagem, candongando a vida alheia de moradores do bairro. Quando elas o viram lá embaixo, na porta do rancho, transformaram-se em pirilampos nervosos e, rodopiando, sumiram na escuridão. E completava ele - não pense que é porque tamo na cidade que as bruxas não andam por aí. Aqui sempre teve e sempre vai tê! Amém Jisuis!

E vejam vocês, hoje em dia, a aroeira virou planta “chique” e, nas sofisticadas vias gastronômicas, é tida por “pimenta-rosa”. Ãhn, ãhn, ãhn, tudo bobiça! Dando ares de barbi, só para mascará a má fama dessa árvre bruxólica!