Estado fadórico das mulheres bruxas de Cascaes¹
Apanhado de pérolas do folclore ilhéu
Por Gunga Rodrigues
O filhinho de oito meses do Eliseu da Tuta apareceu bem doente da noite para o dia. Regurgita o leite que recebe, tem diarreia, febre e manchas pelo corpo. O choro é insistente e fica no berço de bracinhos e perninhas cruzadas. Até parece um filhote de passarinho chupado de berne.
Assustados com o progresso incontrolável da doença e que resistia à ação terapêutica de todos os medicamentos empregados, resolveram consultar um benzedor que morava lá no caminho do Pantanal, o velho Quintino Pagajá. Este era muito dinheirista e incapaz de fazer favor pra alguém, sem antes receber pagamentos em dinheiro. Costumava cobrar adiantado, por algumas horas, o trabalho. Se não confiava, também não trabalhava. O trabalho para Eliseu ia custar 10 tostões.
– So Iliseu, eu acustumo cobrá adientada as cunsurta. Não faço trabaio de cura fiado pra ninguém, nem de graça! Como o sinhôri munto bem sabe, pra mo’de aprindê as binzidura da minha reza, gastê um pudê de tempo e cansê o juízo dos miolo da cabeça. Pra aprindê a dá rumedo de boca abaxo, cristéli, esfregação, fazê sanapismo e muntos otro, tombém, gastê tempo e juízo da cabeça.
– So Quintino, agora aqui eu não tenho o dinhero, mági lá em casa eu pego ele pro sinhôri sem farta.
Mas o Quintino não gostou da proposta e só foi ver a criança depois de muita insistência e penhora do cavalo de Eliseu, como caução do pagamento. Chegando em casa, Eliseu só conseguiu juntar 5 tostões e acanhadamente apresentou ao benzedor.
– So Iliseu, eu só vô arrecebê os vosso cinco tostão pra mo’de sê delicado, mági o vosso cavalo como resto do pagamento eu não aceito, proque ele é munto matungo e eu não vô achá ninguém que dê nem um darrés por ele. Trato é trato, e trato tem que se cumpri. O mo trabaio de cunsurta compreto custa dez tostão, mági o sinhôri só pôde me pagá a meitade dele. Eu antão só vô rezá a binzidura pela meitade tombém.
A ‘meia’ benzedura:
O Quintino entrou no quarto do
enfermo, fez umas mesuras com uns galhos de alecrim molhado em água benta sobre
o corpo esquálido da criança e retirou-se sem falar com ninguém, nem mesmo para
despedir-se.
O resultado:
Naquela mesma noite, lá pelas
vinte e três horas e meia, o Eliseu ouviu vozes de mulheres gargalhando
sarcasticamente no terreiro da frente da sua casa. Saiu pela cozinha para ver e
o quadro sinistro diante suas vistas humanas era horrivelmente estarrecedor: várias
mulheres nuas; uma já com a metade do corpo para dentro do buraco da fechadura
da sua casa; uma velha monstruosa, com um vaso na mão direita; e o demônio
sentado em riba da gaiola do seu sabiá, que ele havia esquecido na rua.
Seus cabelos se eriçaram, suas pernas quase fraquejaram, mas, mesmo assim, ainda reuniu um pouco das forças físicas que lhe restavam e voltou para dentro de casa. Quando colocou o pé na soleira da porta da cozinha para entrar, encontrou-se com sua mulher, que, em prantos, lhe deu a fatídica notícia de que a criancinha acabara de falecer.
Desesperado pela notícia que recebera da morte de seu filhinho, passou a mão numa foice e saiu pronto para decepar a cabeça do demônio, que estava sentado em riba da gaiola do sabiá, e também daquelas bruacas descaradas e sem-vergonha bruxas, mulas sem cabeça, que estavam dando cobertura bruxólica a ele. Mas, quando chegou no local onde estava formado o cenário diabólico, tudo era silêncio. E seu sabiá estava morto e depenado, caído no fundo da gaiola.
O castigo:
– É a dureza da vredade – falou
consigo mesmo. – É ela vistida com o manto reáli!
E lembrou-se:
– Um dia eu tive
uma namorada que era uma moça pobre, órfã de mãe. Eu não tinha a menor ideia de
me casá cum ela. Só pensava memo em arrancá as vrigindade dela e adespôs dá o
fora. No memo tempo, namorava esta que é hoje minha propra muié de cama e mesa.
Por munto tempo, a moça órfã rejeitô as minha proposta mintirosa. Mági, como
‘água mole em pedra dura, tanto bate inté que fura’, um dia ela se entregô pra
mim uma vez, mági otra e mági otra; inté que ficô pra ganhá fiio. No dia em que
ela me falô que ia sê mãe, eu fugi pra casa, arumê as ropa num saco e fui pelo
mundo afora. Fugi das mão da justiça dos home, mági fui caçado, na vorta do
caminho daminha vida, pela justiça de Deus, que tarda mági não faia. O pai
dela, quando sobe [soube] que ela ’tava pra ganhá famiia, botô a coitada pra
rua de casa. Ela foi pra casa da madrinha, que recoieu ela por uns dia, inté
que ela fosse se empregá lá na cidade, na casa duma famiia de gente rica.
Quando ela ganhô a famiia, os dono da casa não quisero a criança. Ela, antão,
com o dinhero que ganhava no emprego, pagava uma muié pra mo’de criá o fiio.
Como o dinhero que ganhava era munto poco, arresorveu caí na vida, pra mo’de
mantê mió a criança, usando a vida triste de muié decaída. Adespôs, apanhô
duença da rua, foi pro Hospitáli da Caridade e, dentro duma sumana, murreu. Foi
o resurtado do mo procedimento bestiáli: a morte duma moça que quiria sê mãe
honestamente e o abandono d’uma criança inocente. Agora, eu já sê que comecê a
pagá o crími que pratiquê e que mo fim sará qui nem o do sabiá: preso numa
cadeia pra mo’de murrê nu c’os fogo do inferno me quemando a alma interinha.
¹ Cascaes, F. O fantástico na Ilha de Santa Catarina. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2015. 272 p.
