Os bilros e as marrecas rendeiras da Constança

Por Gunga Rodrigues

Se tivéssemos que escolher uma grande rendeira das terras do Desterro, de outrora ou atuais, certamente passaríamos por dificuldades. Seriam tantas, que teríamos que pensar em diversas categorias, para não cometer injustiças. Só na Lagoa da Conceição, havia uma avenida inteira delas! Mas no quesito “Renda Mágica da Ilha” a Constança, com certeza, levaria o páreo.

Moradora num sítio nos Ratones, a Constança se dividia entre as lidas da casa, das criações e da renda de bilros, que tanto gostava. Mas o que ela não perdia ocasião, era de ver suas marrecas nadando no pequeno açude da propriedade. Açude este, que seu marido conseguiu implantar com a ajuda do programa de mecanização agrícola, da outrora pujante Cidasc.

Gostava tanto de ver as marrecas, que a Constança levava todo o petrecho da renda para debaixo da sombra de uma sibipiruna, ao lado do açude, e ali tecia suas rendas, sentada numa esteira de taboa. O batuque encantado dos bilros se entrelaçando, entremeado com a cantiga entoada pela Constança, acabava atraindo as curiosas marrecas, que se sentavam ao lado dela, grasnando no ritmo da renda. Era algo realmente espetacular, mágico e divertido de se ver: a Constança cantarolando na renda e as marrecas ao seu lado no quá-quá-quá, todas felizes da vida!

Tão finas e rebuscadas saíam as rendas da Constança que, certa vez, ela recebeu uma encomenda de uma renomada loja da capital, para uma grande quantidade de peças. A Constança encheu os olhos e vislumbrou a possibilidade de auferir uma boa grana, para finalmente realizar o sonho de ter seu próprio fusqueta. E lá se atracou ela na renda. Era bilro pra cá, bilro pra lá e marreca a grasnar sem parar. Tão empolgada estava a Constança, que se descuidou e pegou uma friagem, indo parar na cama com febre e dor de garganta. Nem deu tempo para recolher o petrecho, que ficou debaixo da sibipiruna.

E lá estava a Constança de cama, triste e desacorçoada, vendo o prazo de entrega da encomenda chegar e seu fusqueta ir pro vinagre. De repente, ela começou a ouvir o alarido das marrecas e, temendo ser ataque de algum predador, levantou-se na cama para ver o açude pela janela. Qual não foi seu espanto ao ver as marrecas, defronte à almofada, entrelaçando habilmente os bilros com os bicos e terminando a peça que ela tinha começado a fazer. De tanto ver a Constança tecer, as marrecas aprenderam a fazer renda e assim, ajudaram-na a finalizar a encomenda. Debaixo da sibipiruna, eram agora duas almofadas, uma para a Constança e outra para as marrecas rendeiras!

E não duvida não, istepô! Pergunta pra qualquer morador antigo dos Ratones, se ele não se lembra da Constança, com o fusqueta cheio de marrecas, indo dar um rolê em algum recanto único dessa nossa maravilhosa Ilha da Magia!