O cavalo chucro do Manoel Quintana

Por Gunga Rodrigues

Esse causo eu ouvi lá pras bandas das Canasvieiras, há muitos anos atrás, quando uma chuva intensa, que durou a noite toda, encheu o Rio do Bráz. Esse rio, quando aumentava o nível d’água, acabava saindo ao mar, abrindo caminho pela areia da praia. Porém, dessa vez, havia muita areia acumulada na foz, por ressacas ocorridas durante o inverno. A água em excesso não achou saída pela praia e transbordou para as várzeas. Invadiu uma área de camping, que havia ao lado, sob um bosque de eucalíptos, incomodando os veranistas. O pessoal recorreu à Intendência e uma retro-escavadeira foi chamada. Lá pelas nove da manhã a chuva cessou e a retro-escavadeira pode trabalhar. O operador era experiente e começou o serviço da praia para o rio. Cavou uma concha, depois outra e a terceira, já abriria o canal de extravasamento. Então, ele posicionou a máquina para o lado e abriu o canal. A água acumulada começou a sair veloz, corroendo as bordas do canal. E a força d’água era tanta, que em poucos minutos o canal se alargou em quase toda a embocadura do rio. E descia com muita força, levando toneladas e toneladas de areia, num barulho encachoeirado assustador.

Foi então que os mais velhos, que assistiam a cena, se lembraram do cavalo chucro do Manoel Quintana. Segundo a lenda, tal cheia do Rio do Bráz já havia ocorrido no passado. O rio abriu a passagem para o mar e vazou com força. O Manoel vinha da freguesia em seu cavalo tordilho e precisava chegar à Cachoeira do Bom Jesus sem falta. Ele avaliou que conseguiria atravessar o extravasamento do rio, que ainda estava estreito, e tocou o cavalo. O tordilho refugou o primeiro comando, mas o Manoel insistiu com firmeza. Entraram pelo canal, o cavalo arrenegado não queria seguir avante e o Manoel insistindo. Nesse entrevero, perderam tempo e o canal se alargou e a água ganhou mais força. No meio do percurso, o cavalo tombou e junto com Manoel foi dragado mar adentro. O tordilho se afogou e ganhou sepultura ali mesmo, na foz do Rio do Bráz, enterrado que foi pela areia que o rio retirava da praia. O Manuel, com muito custo conseguiu boiar e foi parar lá no fundo, donde conseguiu nadar de volta para a praia.

Depois desse ocorrido, dizem que, quando o Rio do Bráz abre sua passagem raivosa, desperta a fúria do cavalo chucro do Manoel Quintana, que dá coices quiméricos na água, levantando grandes ondas na praia de Canasvieiras. Isso eu atesto com precisão verdadeira, pois, quando fui tomar banho de mar com os primos, defronte à casa de minha avó, nunca vi ondas tão grandes arrebentando na praia de Canasvieiras.