A tripla tribuzana

Por Gunga Rodrigues

Para minha estimadinha prima Bebel Orofino

O sagrado e o profano na visão de um matuto ilhéu.
Essa história, todo mané que se preze já ouviu falar e conhece bem o Santo, mas nem tanto o milagre... Há exatos duzentos anos antes de eu nascer, em 1764, chegou ao porto do Desterro um brigue trazendo uma encomenda de fé destinada às terras gaúchas. A viagem até ali fora longa e cansativa e o capitão, encantado pelas belezas dos recortes da Costa Açoriana, resolveu se demorar um pouco. Afinal, quem chega nessa Ilha da Magia fica mesmo com essa vontade de não mais ir embora, não é mesmo?

Mas tão venerável encomenda acabou sendo descortinada e, mais rápida que corisco de bruxa, espalhou-se pelos quatro cantos da Ilha. Do Rapa a Naufragados e da Barra da Lagoa aos Coqueiros, tal como o sinal que identifica todo cristão. Sim, nada menos que a imagem de Nosso Senhor Jesus dos Passos estava a bordo. Isso mesmo, aquela que até hoje é venerada e santificada pelo povo ilhéu.

A notícia, com descrição detalhada da imagem de Nosso Senhor, chegou até lá na Caieira da Barra do Sul, aquele lugar pra lá do Ribeirão, longe pra dedéu, onde dizem que o capiroto, cansado, tirou as meias dos pés e acabou esquecendo-as por lá. Demora-se até pra falar todo o nome do lugar! Pois bem, morava na Caieira da Barra do Sul, naquela época, a beata Mirabel, uma senhorinha benfazeja, que dominava certa ciência de cura pelas plantas. Em sua casinha, mantinha um pequeno oratório, onde recebia os desacorçoados em busca de remédio e alívio. E vocês sabem, né, de benzedeiras para feiticeiras, apenas uma tênue linha as separa. Assim, também corria à boca miúda, que beata Mirabel também entendia de outros assuntos, digamos, nada sacros.

E chegou o tempo de Nosso Senhor partir. O capitão deu velas e o brigue deixou o porto, singrando a Baía Sul. O povo desterrense até rezou por uma boa viagem ao Santo, mas acho que não tão firme em sua fé! Quando as velas do brigue se revelaram ao horizonte da Barra do Sul, a molecada da Caieira correu a avisar a beata. Nosso Senhor do Passos não tardaria a passar por ali. Mirabel acendeu uma vela, persignou-se e rezou um Pai Nosso enquanto o brigue passava. Depois, saiu de casa para acompanhar a viagem do barco do alto do morro ali perto. E foi só Mirabel sumir de vista no mato, que uma tribuzana, daquelas de escurecer o horizonte e meter medo no mais audaz dos pescadores, se formou pra lá da barra.

O capitão do brigue, que parece que não tava tão afim assim de deixar a Ilha, vendo a tribuzana e sentindo as primeiras rajadas de vento pelas ventas, resolveu retornar. Pelo mar agitado da Baía Sul, chegou novamente ao Desterro. Qual não foi o espanto do povo ao ver o barco de Nosso Senhor atracado de novo. O “dix-que-dix” logo começou a correr de boca em boca. “Tá vendo, parece que O Senhor dos Passos quer ficar na Ilha!”

Passados os três dias de vento sul com chuva, o tempo se abriu e o capitão resolveu preparar o brigue para a viagem à Porto Alegre. Partiram pouco depois, com vento favorável. O povo ilhéu rezou novamente por uma boa viagem ao Santo, mas já com certa intenção de que a mesma fosse curta. Novamente as velas apontaram na Caieira da Barra do Sul. Beata Mirabel acendeu a vela, rezou o Pai Nosso e subiu o morro. Nova tribuzana fomou-se na barra. O capitão espantou-se com a repetição do fenômeno. Até tentou varar a tempestade, mas amarelou. “Não vou colocar Nosso Senhor no fundo do mar...” Deu panos ao vento suli e aprumou para o Desterro. Novo “dix-que-dix” correu pela cidade. “Tá vendo, eu não te disse que o Senhor dos Passos quer ficar na Ilha?” 

Mais três dias de vento sul com chuva se passaram, antes que o brigue, pela terceira vez, fosse preparado para zarpar. E lá foi ele... O povo ilhéu rezou com fé por um “até breve” ao Santo e, pela terceira vez, as velas apontaram na Caieira da Barra do Sul. Pela terceira vez, Mirabel foi avisada. Mas dessa vez, a beata nem esperou o barco passar ao largo. Saiu de casa, sumiu no mato acima e resmungou: “esses putos não vão obedecê? Todo mundo qué que o Santo fique por aqui!”. O tempo fechou novamente e uma chuvarada, como o capitão nunca tinha visto, fez ele rumar para o porto, do Desterro lógico! Só que dessa vez, o capitão, que tomara três tribuzanas nas fuças, decidiu desembarcar o Santo. “É vontade de Nosso Senhor ficar no Desterro e renovar a fé desse povo, que tanto rezou por sua permanência.”

E assim se fez. Nosso Senhor dos Passos subiu a ladeira do Menino Deus de onde zela, até hoje, pelo seu devoto povo ilhéu.

A beata Mirabel? Essa quando soube que o Santo ficara, em definitivo, nas terras desterrenses, suspirou: “orrax, até que enfim!”