Por Gunga Rodrigues
Um tributo aos Titãs
Sempre
gostei da natureza e de apreciar os bichinhos nos jardins, desde
pequeno. Joaninhas, carochinhas, tatus-bolinhas e centopéias não
escapavam de meu olhar atento. Caracóis, então! Não havia coisa mais
divertida, que observar o esticar de olhos dos caracóis. Onde quer que
encoste, o olho se retrai rapidamente e o caracol desvia a cabeça para o
lado, para, em seguida, esticar novamente o olho. Era fascinante!
Carreiros de formigas saúva... outra grande diversão! Lá vai a
“bernuncia”, para uma formiga que carregasse um pedaço de folha fino e
comprido. Ali vem a “Maricota”, para aquela que levasse o pedaço
empinado. Aquele ali é o boi-de-mamão... Passava horas vendo o vai-vem
das formigas.
Tal
paixão também tinha o Cálipo, um garotinho que conheci tempos atrás. Só
que a alma naturalista dele era bem mais ampla. Apreciava também
aqueles bichinhos, digamos, muito mais repugnantes. Lesmões, vermes e
baratas não o intimidavam. Tão pouco opiliões, corós, piolhos-de-cobra e
minhocas. Não tinha medo de aranhas, lacraias ou marimbondos, embora
soubesse que com eles não se brincava. Sapos, rãs e pererecas também não
o enojavam. Cálipo, inclusive, me ensinou a diferenciá-los. O segredo
estava nos pés, me disse. Os sapos têm os dedos finos e compridos. As
rãs têm membrana ligando os dedos, como um pé-de-pato; e as pererecas,
têm uma bolinha na ponta dos dedos, que serve para grudar nas paredes.
Outro bicho que Cálipo gostava de ver grudado nas paredes, era a
lagartixa. Às vezes, fazia a travessura de segurá-las pelo rabo, só para
ver elas fugirem, largando o rabinho se contorcendo para trás. Também
sabia encontrar ovo de lagartixa nos buracos das paredes ou atrás de
livros velhos. Uma bolinha branquinha, proporcionalmente, bem maior que
um ovo de galinha.
Cálipo, certa vez, encontrou uma cobra-de-duas-cabeças. Vocês acham que ele ficou com nojo? Que nada! Pegou a bicha e foi mostrar para sua mãe, que quase teve um piripaque. Não soubesse ela da paixão do filho, teria armado o maior barraco... Mas a melhor do Cálipo, foi quando ele encasquetou de criar uma maria-fedida. Recebeu um ultimato de sua mãe e, na mesma hora, teve que soltar o bicho na natureza e tomar um banho!
Quando Cálipo me contou esse incidente, perguntei se ele sabia por que existiam tantos bichos nojentos? Ele fez cara de curioso, então, contei que, bem no começo do mundo, só existiam bichinhos fofinhos – oncinhas pintadas, zebrinhas listradas, coelhinhos peludos... Todos tinham sido criados pela fada Carminha, que só gostava das coisas belas. O mundo de Carminha tinha que ser todo coloridinho e bonitinho... Só que tanta belezura encheu o saco da Creusa, irmã da Carminha, que não podia criar seus próprios bichinhos. Creusa resolveu, então, apavorar e, num dia, pegou um formoso caracol e botou ele para fora da casa. Quando Carminha viu aquele caracol sem casa, soltando gosma pra tudo quanto é lado, ficou com nojo e chamou a Creusa. A irmã perguntou se Carminha não tinha gostado do lesmão que criara e Carminha disse que não, que o bicho era muito nojento. Creusa deu boas risadas e resolveu se divertir mais. Pegou uma centopéia lindinha, tornou-a maior, de cor roxa e encerou bem o casco. Pegou o bicho na mão, chamou-o de piolho-de-cobra e mostrou para Carminha, dizendo que, quando ela dormisse, o bicho ia entrar pelo seu ouvido! Carminha voou para longe toda enojada. E daí, a fadinha Creusa não parou mais. Dos bichinhos fofinhos da Carminha, foi criando bichinhos escrotinhos, para enfeitar seu lar, seu jantar, seu nobre paladar!
