O tear encantado da Gina Ventura

Por Gunga Rodrigues

A Gina Ventura era uma senhorinha que morava lá pras bandas da Fazenda do Celso, na estrada velha que dava acesso à Canasvieiras e sua ainda não famosa praia. Já viúva e morando apenas com uma filha, que ficara para titia, a Gina Ventura era profunda conhecedora das artes feiticeiras, curandeiras e tecedeiras. Bem por isso, era frequentemente requisitada pelas comadres de entorno para auxiliá-las nas suas dificuldades, entre elas, as lidas com o tear.

Pra essa galera jovem, que não chegou a vê-lo, o tear era “o aparelho em que se teciam, em todos os sítios da Ilha como nos do continente, guardanapos, toalhas, colchas, riscados e essas musselinas de algodão tão comuns aí.” Normalmente armado nas casas, num compartimento de chão batido, o aparelho era todo feito de madeira e bem estruturado para, quando em trabalho, resistir ao bater rijo e contínuo do “pente” após a passagem da “lançadeira”. Bater esse, bem característico e que, como dizia Virgílio Várzea, se ouvia à distância nos sítios, quando as moças da casa se ocupavam da tecelagem.

A Gina era exímia tecelã e sabia, como poucas, urdir uma fina musselina para os mais chiques vestidos de festa. Já em idade avançada, ela foi procurada por sua afilhada para que lhe preparasse o vestido de noiva, para o casório já marcado. A Gina estimava muito essa afilhada e, mesmo debilitada e sem a destreza dos tempos de outrora, atracou-se no tear a fazer o pano. O bater do pente se ouvia madrugadas adentro, num ritmo frenético que só a Gina sabia dar. Parecia mesmo que o aparelho funcionava sozinho, como que por encanto. Assim, em pouco tempo, grande quantidade de fina musselina branca já estava pronta para a Gina iniciar o corte do vestido. E ficou mesmo divino o vestido da afilhada. Caindo com perfeição, lhe emoldurava o corpo esbelto, deixando-a super atraente e lindíssima.

Aconteceu porém que, no dia do casamento, a Gina passou mal e não pode ir. A afilhada soube da ausência da madrinha pela filha da Gina e ficou apreensiva, mas o casório prosseguiu. Na hora do “sim”, a senhorinha expirou sozinha em seu quarto. No mesmo instante, o vestido branco da afilhada foi escurecendo, pouco a pouco, até tonar-se totalmente preto. Quem presenciou aquela cena, jurava de pés juntos, que a afilhada da Gina ficou muitíssimo mais bonita naquele vestido agora preto. Uma verdadeira Fata Morgana.

A afilhada acabou ficando com o tear da Gina Ventura, quando a filha foi embora para a cidade. Ela o montou em sua casa, na Praia do Forte, e passou a produzir os mais finos tecidos para as madames da capital. Tecidos únicos, iridescentes, que nenhum outro tear, quer manual ou industrial, conseguia fazer. O bater encantado do tear da Gina se ouviu por muitas madrugadas naquela freguesia, até que um dia silenciou. Dizem que a Fata Morgana o libertou e ele saiu voando para o espaço sideral, batendo os “lisses” como se fossem as asas de um grande pássaro quimérico. Passou por Júpiter, Saturno e Plutão, muito antes daquelas espaçonaves americanas!