O fantástico álbum de Berenice

Por Gunga Rodrigues

Na época em que meus antepassados habitavam a Praia do Forte, também vivia pelo Desterro a Maria Berenice, uma garota meiga, mas bem tristonha. Ela sempre achava que a sorte não lhe sorria e que só coisas ruins lhe aconteciam. No aniversário de 15 anos, sua madrinha tão querida lhe deu um álbum de recordações, que serviria, inclusive, para guardar ocasionais retratos. Era um álbum diferente e feito no capricho, cujas páginas abriam outras, que por sua vez continham compartimentos secretos, que se abriam conforme se manipulava a página ou todo o livro. Na capa, o desenho em cores de uma borboleta, que parecia verdadeira.

A Berenice pensou em folhear o álbum, porém só conseguiu abrir a primeira página, onde, numa abertura em forma de bolso, tinha um bilhete da madrinha: “Querida afilhada Maria Berenice. Esse é um álbum especial, que eu mesma fiz. Poderás abrir uma nova página a cada dia e nela guardar tuas recordações, boas ou más. Também verás mensagens de incentivo para tua vida e, quando encontrares a felicidade, ela se realizará!” A madrinha da Berenice tinha todo o ferramental para ser uma bela duma feiticeira, e parece que era mesmo...

De noite, a Berenice pensou em guardar no álbum o carinho que sentia pela madrinha e percebeu que, na página aberta, tinha agora um coração vermelho cortado em papel. Ela passou os dedos pelo coração e escutou o som de um beijo, sentindo na face que realmente recebera um beijo da madrinha. E assim, dormiu feliz.

No dia seguinte, Berenice abriu a segunda página do álbum, que era uma página dobrada, que se abria em outras quatro. Compartimentos se revelavam soltando botões, desamarrando laços de fita ou abrindo lapelas. Berenice guardava suas recordações e achava, escondidas, mensagens de ânimo, otimismo e perseverança. Ficou feliz e riu quando leu uma que dizia que “o doce da vida está num doce-de-coco”. Então, se lembrou da avó, do doce-de-coco que ela fazia, ficou com vontade e foi visitá-la. Chegando perto da casa da avó, já sentiu da rua o aroma do doce-de-coco. E vinha mesmo da casa da avó o doce aroma! Berenice se alegrou e tomou café com a avó, saboreando um delicioso doce-de-coco.

Noutro dia, Berenice abriu mais uma página do álbum e dentre as recordações que guardou e mensagens que leu, se alegrou com uma que dizia “de ao dia um tempinho e receba um carinho”. Quando ela estava indo ao Liceu, fez uma pausa na praça para apreciar umas flores e recebeu uma rosa de um rapaz elegante que por ali passava. E assim seguiu Berenice, abrindo páginas do álbum, descobrindo compartimentos, guardando recordações, lendo mensagens, se alegrando e tendo coisa boas lhe acontecendo. Até que ela chegou no compartimento mais secreto da última página. Lá tinha outro bilhete da madrinha: “Minha querida afilhada Maria Berenice. Seu álbum deve estar agora repleto de recordações. Folheie as páginas e libere espaço para guardar as novas. Um beijo da madrinha!” E assim fez a Berenice, ao sentir o beijo da madrinha no rosto. Foi folheando as páginas e delas saindo lindas borboletas de suas boas recordações e grãos de areia, que caíam ao chão, de suas más lembranças..

Esse álbum a Berenice cuidou e guardou com muito carinho por toda a vida; aliás, uma vida muito feliz. Depois de muito tempo, o álbum foi achado por uma bisneta, que repassou para a filha, que também se chamava Berenice. Dizem que essa nova Berenice é a felicidade em pessoa e que, por onde passa, encontra e espalha alegria para todos.