A pequena princesa de Zé Perri

Por Gunga Rodrigues
(um causo ilhéu à moda de Elevation – U2)

Nos primeiros decêndios de 1900, surge pelos céus da antiga Desterro, a máquina voadora dos homens, o aeroplani. “Digi, dindinha Bola, digi pro aeroplani trazê pão com melinho!” - foi o que sempre ouvi lá em casa, quando se falava de antepassados conhecendo o avião. E a Ilha, lá pras bandas do Campeche, tinha uma larga planície de campo ralo, boa pra pousar avião. Os hidroaviões, estes amerrissavam nas baías, dependendo de qual estava calma na ocasião; mas os aviões com trem de pouso, estes iam mesmo para o Campeche.

O lugar era tão apropriado, que a companhia francesa Aeropostale montou um escritório com base de reabastecimento para os aviões que faziam a rota Rio de Janeiro – Buenos Aires. E a Aeropostale tinha um piloto deveras famoso: Antoine Jean-Baptiste Marie Roger Foscolombe, Conde de Saint-Exupéry, ou simplesmente Antoine de Saint-Exupéry, autor da magnífica obra O Pequeno Príncipe. E não é que o istepô andou pelas terras desterrenses!? O “Zé Perri”, do manezinho ilhéu, o fez lá por volta de 1930, segundo a imprensa local.

Naqueles longínquos anos 30, morava no Rio Tavares a Alita, uma jovem de 18 anos, descendente de uma linhagem de bruxas famosas por dominarem a arte do voo em vassoura. Mas Alita era pura frustração. Não aprendia e nem conseguia dominar a técnica de se erguer no ar. Achava até que não tinha alma de bruxa. Faltavam-lhe conhecimentos básicos de dinâmica dos fluídos, empuxo, gravitação e outras grandezas - e miudezas - físicas mais, que a avó e tias não sabiam ensinar. Mas, quem saberia? Eis que Alita fica sabendo do tal Zé Perri e corre lá pro Campeche. Se o caboclo era bom de voo, haveria de lhe dar boas dicas.

Antoine de Saint-Exupéry descansava da viagem numa espreguiçadeira à beira mar, quando Alita, sorrateiramente, o abordou. Usando de magia, deu um “bon jour” e, arranhando no francês, pediu que lhe ensinasse como se elevar. Alto, mais alto que o sol, ela precisava voar. Antoine se encantou com a beleza de Alita, seus lábios e gingado dos quadris. Assim eclipsado, como poderia negar seu pedido. A moça ainda lhe confessou tristemente que estava mais para um tatu, cada vez mais enterrada no chão, mas que sua alma era das alturas e ele, Zé Perri, poderia lhe levar ao céu, como se ela já soubesse voar. O piloto, enfeitiçado que estava, se compadeceu da moça e propôs levá-la num voo por sobre a Ilha. Alita exultou e marcaram a saída para a manhã seguinte, bem cedo, antes de ele partir para o Rio de Janeiro.

Mal o dia clareou e Alita já rumava para o Campeche. Encontrou Zé Perri paramentado, conferindo e revisando os controles do avião para o voo. Vendo o ar de curiosidade da moça, Antoine foi lhe explicando a função aerodinâmica de cada componente. Asas, ailerons, leme, profundor e seus cabos tensos com as cordas de um violão... Era como um barco, que navegava no ar. Depois adentraram a cabine. Minha nossa, quanto botão e reloginhos!

- “S'il vous plaît”, ilumine minha mente e me explique todos esses controles.
- Isso, faremos na prática, minha jovem, voando!

Zé Perri taxiou o Late 28, deu carga no motor e rolou pelo campo. O aeroplani ganhou velocidade e garrou os ares. Alita não cabia de alegria dentro de si. Era fantástico ver tudo lá de cima. A Ponta das Garças, a Lagoa e as dunas, a Barra, as Aranhas, o Rio Vermelho, o Rapa, Canasvieiras, Jurere, Ratones, Sambaqui, Santo Antônio; a capital, o Rio Tavares, o Ribeirão, o Aririú da Formiga do outro lado, a Barra Sul, Araçatuba, Três Irmãs, o Pantano, a Armação e, finalmente, o Campeche. Nesse longo trajeto, Zé Perri foi lhe explicando, tin-tin por tin-tin, cada componente do painel. O altímetro, o velocímetro e demais ímetros; a bússola, o rádio e o giro. Os comandos dos pedais e do manche. Como empinar, como embicar, fazer curva pras dereita, cambar as esquerda e tudo o mais. Uma aula como Alita jamais poderia sonhar.

De volta ao chão, Alita despediu-se do Zé com um beijo e correu para casa. Não via a hora de por em prática seus novos conhecimentos e ganhar os céus numa vassoura. Já tinha tudo planejado em mente para a noitinha. Então, lhe veio um sentimento de agradecimento ao piloto francês, que tão gentilmente fora seu efêmero professor. Pensou no que poderia lhe deixar de lembrança...

- Sim, já sei do que ele vai gostar!

Porém, súbito, lembrou-se que ele partiria no início da tarde e não daria tempo para lhe preparar o presente. Alita, com os poderes à flor da pele, restaurados por sua felicidade, invocou as nuvens. Pouco a pouco elas foram se acumulando no cocoruto da Cambirela. Antes do meio-dia, a trovoada já estava formada. Sim, isso manteria Zé Perri em terra e ela poderia lhe dar a lembrança na manhã seguinte.

À noitinha, Alita foi testar seus conhecimentos. Pegou a vassoura, foi até o pasto do Junqueira, montou na bicha, saiu em disparada contra o vento, deu impulso e elevou-se no ar. E lá foi a feliz bruxinha, noite adentro, voando pela Ilha. Percorreu a rota que fizera pela manhã com Zé Perri. O vento forte no rosto a lhe jogar os cabelos para trás. O mesmo vento que lhe fazia fechar levemente os olhos e roubar lágrimas dos cantos da vista. O vento da liberdade! Retornou ao pasto do Junqueira, embicou e aterrissou, tal como fizera o Late 28.

Na manhã seguinte, uma exultante Alita foi falar com Zé Perri. Trouxera uma lembrança para ele jamais se esquecer dela.

- É uma pena de Yorixi, que talhei num cavaco de angico. Ponha-a no pescoço, imagine que te vês no espelho como uma águia e ganhe os céus. 

Zé Perri ficou admirado com o entalhe da pena, que parecia mesmo uma pena de verdade, só que de madeira. Pendurou-a no pescoço e ganhou um beijo estalado de boa viagem.

Alita e Zé Perri ainda se encontraram umas poucas vezes pelos campos do Campeche, quando o piloto francês descia na Ilha. Ela, já uma perfeita “aviadora”, ele com a pena mágica ao pescoço. Porém a Guerra começou na Europa e Zé Perri nunca mais voltou. Bom aviador que era, ingressou na Força Aérea e combateu nos céus. Em 1944 seu P38 foi alvejado por um piloto alemão e ele precipitou-se no mar, sendo dado como morto em combate. Seu corpo nunca foi achado.

Essa triste notícia demorou a chegar às terras desterrenses e Alita, quando soube do ocorrido, não acreditou. Ela sabia, por intuição, que seu venerado amigo, no último instante, deixara a cabine de sua ave de aço e, como águia quimérica, ganhara o espaço sideral, indo morar naquele asteroide único com seu amável Pequeno Príncipe.

Voltando da América do Sul onde, de um a um eu havia me misturado aos costumes do Brasil ou da Patagônia, aos problemas locais, a mil “elementos” de outras famílias humanas, que eu não podia mais tão facilmente viver como absolutas as histórias dos mouros sob suas tendas...”        Antoine de Saint-Exupéry

Elevation - https://www.youtube.com/watch?v=Iexn9X8bLOU