Por Gunga Rodrigues
(um causo ilhéu à moda de Elevation – U2)
- “S'il vous plaît”, ilumine minha mente e me explique todos esses controles.
- Isso, faremos na prática, minha jovem, voando!
Zé Perri taxiou o Late 28, deu carga no motor e rolou pelo campo. O aeroplani ganhou velocidade e garrou os ares. Alita não cabia de alegria dentro de si. Era fantástico ver tudo lá de cima. A Ponta das Garças, a Lagoa e as dunas, a Barra, as Aranhas, o Rio Vermelho, o Rapa, Canasvieiras, Jurere, Ratones, Sambaqui, Santo Antônio; a capital, o Rio Tavares, o Ribeirão, o Aririú da Formiga do outro lado, a Barra Sul, Araçatuba, Três Irmãs, o Pantano, a Armação e, finalmente, o Campeche. Nesse longo trajeto, Zé Perri foi lhe explicando, tin-tin por tin-tin, cada componente do painel. O altímetro, o velocímetro e demais ímetros; a bússola, o rádio e o giro. Os comandos dos pedais e do manche. Como empinar, como embicar, fazer curva pras dereita, cambar as esquerda e tudo o mais. Uma aula como Alita jamais poderia sonhar.
De volta ao chão, Alita despediu-se do Zé com um beijo e correu para casa. Não via a hora de por em prática seus novos conhecimentos e ganhar os céus numa vassoura. Já tinha tudo planejado em mente para a noitinha. Então, lhe veio um sentimento de agradecimento ao piloto francês, que tão gentilmente fora seu efêmero professor. Pensou no que poderia lhe deixar de lembrança...
- Sim, já sei do que ele vai gostar!
Porém, súbito, lembrou-se que ele partiria no início da tarde e não daria tempo para lhe preparar o presente. Alita, com os poderes à flor da pele, restaurados por sua felicidade, invocou as nuvens. Pouco a pouco elas foram se acumulando no cocoruto da Cambirela. Antes do meio-dia, a trovoada já estava formada. Sim, isso manteria Zé Perri em terra e ela poderia lhe dar a lembrança na manhã seguinte.
À noitinha, Alita foi testar seus conhecimentos. Pegou a vassoura, foi até o pasto do Junqueira, montou na bicha, saiu em disparada contra o vento, deu impulso e elevou-se no ar. E lá foi a feliz bruxinha, noite adentro, voando pela Ilha. Percorreu a rota que fizera pela manhã com Zé Perri. O vento forte no rosto a lhe jogar os cabelos para trás. O mesmo vento que lhe fazia fechar levemente os olhos e roubar lágrimas dos cantos da vista. O vento da liberdade! Retornou ao pasto do Junqueira, embicou e aterrissou, tal como fizera o Late 28.
Na manhã seguinte, uma exultante Alita foi falar com Zé Perri. Trouxera uma lembrança para ele jamais se esquecer dela.
- É uma pena de Yorixi, que talhei num cavaco de angico. Ponha-a no pescoço, imagine que te vês no espelho como uma águia e ganhe os céus.
Zé Perri ficou admirado com o entalhe da pena, que parecia mesmo uma pena de verdade, só que de madeira. Pendurou-a no pescoço e ganhou um beijo estalado de boa viagem.
Alita e Zé Perri ainda se encontraram umas poucas vezes pelos campos do Campeche, quando o piloto francês descia na Ilha. Ela, já uma perfeita “aviadora”, ele com a pena mágica ao pescoço. Porém a Guerra começou na Europa e Zé Perri nunca mais voltou. Bom aviador que era, ingressou na Força Aérea e combateu nos céus. Em 1944 seu P38 foi alvejado por um piloto alemão e ele precipitou-se no mar, sendo dado como morto em combate. Seu corpo nunca foi achado.
Essa triste notícia demorou a chegar às terras desterrenses e Alita, quando soube do ocorrido, não acreditou. Ela sabia, por intuição, que seu venerado amigo, no último instante, deixara a cabine de sua ave de aço e, como águia quimérica, ganhara o espaço sideral, indo morar naquele asteroide único com seu amável Pequeno Príncipe.
“Voltando da América do Sul onde, de um a um eu havia me misturado aos costumes do Brasil ou da Patagônia, aos problemas locais, a mil “elementos” de outras famílias humanas, que eu não podia mais tão facilmente viver como absolutas as histórias dos mouros sob suas tendas...” Antoine de Saint-Exupéry
Elevation - https://www.youtube.com/watch?v=Iexn9X8bLOU




