Tálassa e os seres marinhos

Por Gunga Rodrigues

Certa vez conheci uma menininha alegre, esperta e radiante na Praia do Jurerê. E essa menininha sabia tudo sobre o mar. Tálassa era seu nome. Pesquisei e vi que a palavra é de origem grega e significa mar. Pois, Tálassa, sabia tudo sobre o mar. Sabia que aquela areia ouriçada na descida das ondas de mar grosso era por causa das tatuíras enterradas. Sabia também que os mariscos de praia deixavam o mesmo rastro. Tálassa sabia que as praias aumentavam ou diminuíam ao sabor das marés e que a areia branquinha era o lar dos caranguejos. Caranguejos que são os primos terrestres dos siris. Enquanto os primeiros são ágeis corredores, os segundos são hábeis nadadores. Mas ambos conservaram o hábito ancestral de se enterrar.

Tálassa também conhecia os ouriços, as ostras, cracas e mexilhões. Gostava de ver balõezinhos dentro d’água, mas ficava longe das águas-vivas e caravelas. Peixes então, conhecia quase todos. Cocoroca, canhanha e marimbau; badejo, garoupa e mero; charuto, sardinha e manjuva; tainha, anchova e pescada. Tinha até pena do linguado, que ficara de boca torta por ter escarnecido Nossa Senhora.

Braba ficava a menina quando, por descuido, diziam que baleia era peixe. Isso ela logo corrigia. Baleias, golfinhos, botos e cachalotes são mamíferos, tal como as focas, morsas e lobos marinhos. Peixes grandes eram os tubarões, atuns e marlins. As arraias, violas e jamantas, até não pareciam, mas peixes eram também.

No mar, botava nas ondas sua atenção. As marolinhas as mais pequeninhas. As rainhas, as grandonas. Nas baías e enseadas viviam as marolinhas. No mar grosso as rainhas. Tálassa sabia reconhecer as rainhas – a maior onda numa sequência de três a cinco ondas súditas. Primeiro sempre vem uma súdita, depois a rainha e por fim as outras súditas. Passado esse cortejo, vem certa calmaria, para depois entrar novo desfile.

Tálassa um dia me contou que uma linda borboleta se perdeu numa tempestade e foi cair no mar. Ela estava muito cansada e começou a se afogar. Então passou uma poderosa feiticeira e ficou com pena da pobre borboleta se afogando. Mas a feiticeira disse que a borboleta era muito diferente e não podia transformá-la em peixe para salvar sua vida. Então a borboleta pediu que a transformasse em tartaruga. A feiticeira voltou a dizer que ela não era do mar para ser transformada em tartaruga. Me transforme num boto feio pediu a linda borboleta já ficando sem ar. Mas mais uma vez ela era muito diferente para isso. Não sabendo o que fazer, a feiticeira chamou o polvo, que era um dos seres marinhos mais inteligentes. Ao ser perguntado que bicho a linda borboleta podia virar para não morrer afogada, o polvo disse que numa lagosta ela estaria salva. E assim fez a feiticeira. A barriga da borboleta virou uma potente cauda, para fugir dos inimigos. O corpo, no cabeção da lagosta e as lindas asas nas grandes antenas. Por fim a feiticeira consolou a linda borboleta, que tinha ficado muito feia, dizendo que o mar era um lugar bem perigoso e que ela, como lagosta, estaria protegida desses perigos. Disse também que ela teria muitos filhos, que povoariam todos os mares. E um dia, saiu da barriga da lagosta um monte de camarão!