Mundo de vertigens

Por Gunga Rodrigues
(um causo açoriano à moda de Vertigo – U2)

"Uno, dos, tres, catorce!"

Quando os açorianos vieram ao Desterro, uns desgarrados foram ficando pelo caminho, nos vários recortes do continente. Tanto que a fala rápida e o “s” chiado ao som de “xis” se ouvem por quase toda a costa pesqueira catarinense, de São Chico, por Itajaí à Laguna. Porém, o assombro das bruxas e seres sobrenaturais não se espalhou tanto. A Ilha parece ter atraído toda a magia...

Uma das fronteiras do sobrenatural, rumando pra Santos, tá ali pelas bandas dos Zimbros, lugar hoje frequentadíssimo, pelas suas praias paradisíacas. Mas, quando aquilo tudo era só matão, morava em Morrinhos o Pita da Jurema. O guri sempre foi quieto, magrinho e meio pálido, devido não se alimentar direito. Não gostava de verduras e legumes e passava quase sempre à pirão com peixe. Assim cresceu e assim ficou, um rapaz tímido, alto e magro, de pele clara. Com tamanhos atributos, logo correram boatos, à boca miúda, de que ele era lobisomem. As garotas da comunidade não gostavam de estar perto dele, pois seu ar cadavérico suscitava medo. Exceção era Maria Cândida, uma moça bem tímida também, que despendia olhares de paixão para o Pita. Mas, como tímido com tímido não se acertam, os dois seguiam sem se conhecer melhor.

Mas aconteceu, numa noite de quermesse, do Pita e Maria Cândida se encontrarem e até se atracarem numa conversa, ainda que meio sem jeito e sem saber o que dizer um para o outro. Queriam dançar, mas não sabiam. Como o que vai mal ainda pode piorar, chegaram uns boyzinhos roqueiros e ficaram tirando onda com aquele casal de indecisos. Pita acabou ficando nervoso, se despediu de Maria Cândida e foi embora.

Noite de lua cheia, estrelas douradas cintilando no céu esgazeado, a selvageria adentrou a cabeça de Pita. Não conseguiu mais controlar seu coração e o instinto animal prevaleceu sobre a razão. Transformação. E num mundo de vertigens adentrou. Auuuu! Auuuu!

Ao fim da quermesse, quando a molecada roqueira ia por uma rua escura fazendo arruaça, com a cachorrada latindo sem parar, surgiu um grande animal feroz, que não souberam identificar se era um grande porco-do-mato, um enorme zorrilho ou um cahorro-do-mato. A fera investiu urrando contra eles, que saíram assustados em debandada.

No outro dia o rebuliço estava formado na comunidade. “Dix-que-dix” pra todo lado. Um lobisomem surgira e atacara e todos olhavam agora desconfiados para o Pita da Jurema. Era o candidato natural para receber a fama. Maria Cândida ficou consternada. Ela precisava ajudar o Pita, seu amor, livrá-lo da famigerada fama. Correu então até a freguesia de Porto Belo e foi ter com a Chica Justina, a benzedeira local. A Chica, conhecedora dos meandros quiméricos, instruiu Maria Cândida a acabar com a maldição: “vista um pulôver de lã, troque os sapatos dos pés, direito no esquerdo e esquerdo no direito, tenha uma adaga às mãos e, quando a fera atacar, cause-lhe um ferimento. Dê-lhe seu amor, que ele se salvará.

E lá estava Maria Cândida, sob o luar frio numa rua escura de Matinhos. Os pés desconfortáveis. Mãos trêmulas de unhas carmim segurando a adaga. No pescoço, Jesus crucificado, seu conforto e segurança. Do mato surge a fera, fareja a lã e rosna, a cachorrada das proximidades late sem parar. No seu mundo de vertigens, Pita reconhece vagamente sua amada. Hesita e se aproxima devagar. Fique parada e não se machucará... Mas sua mente se obscurece e ele avança. Maria Cândida desfere o golpe: “Segue, segue teu caminho cristão batizado; volta pro lugar que viestes e devolve esse maldito fado!”

O Pita, com um corte no braço, surge diante de sua amada, caído de joelhos ao chão. Terminara ali sua maldição, seu mundo de vertigens, com todo o amor de Maria Cândida.

Vertigo - https://www.youtube.com/watch?v=YmjVgqZ21tU