A lenda do corvo-branco

 Por Gunga Rodrigues

 O Morro do Padre Doutor, donde se tem aquela vista espetacular da Lagoa da Conceição, é repleto de causos ilhéus. Esse eu escutei por lá, na época em que o mirante era pouco mais que uma clareira no mato e a estrada calçada com paralelepípedos.

Diziam que habitava aquele alto de morro um corvo-branco, que pelo Brasil afora também é conhecido por urubu-rei. O bicho é até bem esquisitão: um urubu de plumagem branca, com a borda de fuga das asas e a cauda pretas. Nos ombros, veste um cachecol cinza. O pescoço, como bom urubu, é pelado, mas o do corvo-branco tem a pele colorida, feito as fuças de um macaco mandril.

Mas esse corvo-branco do Morro do Padre Doutor era diferenciado - e não catalogado! Passava boa parte do dia assuntando o movimento nas Sete Curvas, empoleirado escondido entre a ramagem espessa das árvores. Talvez tivesse certeza que algum petisco lhe seria servido pelo rodado preto dos carros. E por estar assim escondido, não era facilmente visto, nem por perspicazes ornitólogos que por ali passavam. Porém, o mais incrível é que, à noite, ele ganhava os céus. Até parecia uma rasga-mortalha! Voava até a Galheta e lá desaparecia.

Coincidência ou não, pescadores diziam ver, nas pedras do costão, uma bela mulher em vestido de noiva a olhar o mar durante a noite. Há quem diga que era o espírito de Rosa Maria, eterna noiva que, numa triste tragédia, fora chamada pelas águas calmas da Conceição. Um pampeiro traiçoeiro, vindo furioso pelo Campeche, virou a canoa enfeitada em que ela vinha, de branco, da Costa da Lagoa, para se casar na capela erguida para Nossa Senhora da Imaculada Conceição.

Desde então, há tempos em que o corvo-branco some e outros em que reaparece. Talvez retorne quando Rosa Maria vem procurar, no mar, seu amado pescador; ou então, quando apenas vem matar as saudades de sua bela Ilha da Magia.