Trabalho árduo no engenho

Na raspação da mandioca de Cascaes¹

Apanhado de pérolas do folclore ilhéu
Por Gunga Rodrigues

O cenário:

Dona Vada saiu de casa e foi no engenho do seu Simpiliço mo’de raspar mandioca, com as demais pessoas da casa do engenho. Ao anoitecer, mandaram uns rapazes na venda do seu Silvestre comprar uns biscoitos para comerem ali na raspação. Acenderam duas lamparinas de crosena e o trabalho continuou, regado a cânticos e estórias contadas.

Dentro desse mundo de confusão social regional, surgiu o nome de um moço do lugar meio pálido, que ficou conhecido pelos moradores dali como sendo um autêntico lobisomem. O tal moço prometeu pra turma da raspação que ia meter um susto nas crianças que foram na venda.

Dona Vada, mulher muito espavitada e astuta ficou matutando as palavras do moço lobisomem. Passado uns cinco minutos, levantou-se agarrou um fueiro de peroba do carro de boi e se mandou ao encontro das crianças.

O ataque da fera:
Quando Dona Vada chegou em frente do curral, onde seu Simpiliço prendia os animais para dormir, foi surpreendida por um cavalo que despencou de dentro de uma malha de gravatá em direção dela. Não teve acanhamento, firmou o fueiro que levava consigo para sua defesa e mandou certo bem inriba da cabeça do cavalo, que imediatamente recuou para os gravatás.

A conclusão de Vada:
Sinhá Vada lembrou-se que o cavalo era o Baloca fantasiado de lobisomem e passou nervosamente a gritar: Baloca, Baloca tu és lobisome, tu és lobisome. Este cavalo és tu.

Desfecho:
As crianças chegaram com os biscoitos e ela narrou o acontecimento lobisômico pra elas. Muito amendrontados, mas protegidos pelo fueiro de peroba, o grupo voltou para o engenho. Lá Dona Vada gritou pelo seu Simpiliço que apagasse as luzes e viesse atender ela. Assim no escuro ela pode narrar o acontecimento sobrenatural e natural, sem o perigo de ser tomada pelo poder daquele trasgo amarelo, o Baloca.

O trabalho de raspação recomeçou, regado a muitas canecas de chá de folhas de laranjeira, de cidreira, palha benta da sexta-feira santa, queimação de chifre de boi, alfazema e até acenderam velas no oratório dos santos protetores.

A surpresa:
De repente, quando tudo já estava calmo, o Baloca apareceu no engenho assim meio cabreiro que nem boi atacado por mutuca: cabelo desgrenhado, descalço; os cordão da ceroula destado, soltos por riba dos pés, sangrando dos espinhos do gravatá.

Sinhá Vada, quando viu o Baloca, não se conteve e gritou a pleno pulmão: Baloca, Baloca tu és lobisome seu malvado.  Tavas em trás de cavalo e eu dei-te com este fueiro bem no cacaruto da cabeça e tu fugiste pra dentro do gravatá.

A confirmação:
Dona Vada gritou pra turma de mulheres que ‘tavo raspando mandioca: Raparigas agarrem o Baloca e vejam se não tem um galo bem novo em riba da cabeça.

Tem sim sinhá Vada! Vai cantar agora pela primeira vez porque os esporões já estão começando  a aparecer nos pés do Baloca!

Assim o coitado do Baloca foi apanhado com o fueiro da sinhá Vada. Perdeu o fado, mas durou pouco. Lobisomem descoberto que perde a virtude, a mode dele ta perto.

¹ Silveira, C.R. Um bruxo na Ilha: Franklin Cascaes. (Resgate de narrativas inéditas). Florianópolis: UFSC, 1996. 449fl. (Dissertação. Mestrado em Letras).