Por Gunga Rodrigues
Na freguesia da Ponta das Canas, no Jurerê e arredores, também testemunhei a cantoria monótona que embalava o lento, mas obstinado, caminhar dos bois na canga. Isso mesmo, quem já viu carro-de-boi pela estrada, sabe que ele canta ao ser puxado. Na verdade pode ou não cantar. O guincho depende do aperto e lubrificação que se dá aos chumaços, cocão e eixo, havendo regulagem até para não fazer barulho algum. Mas o canto do carro-de-boi, além de dar a toada aos bois, servia também para espantar as “imundiça” que aparecessem pelo caminho. Lobisomem, saci, boitatá e até bruxa não ficavam perto daquela choradeira sem fim.
Enturmado com a rapeize, o João Lenão também diversificou seu gosto musical. Ouvia o rock progressivo do Pink Floyd e do Supertramp, as baladas dos Beatles, do Queen e dos Stones e até mesmo o rock porrada do AC-DC, Deep Purple e Kiss. Isso sem falar na pauleira do Metallica, Led Zeppelin e Iron Maden. Ai, Jisuis!
Viveram um romance bonito, a bordo de um carro-de-boi, que agora, à sua maneira, entoava o riff de “Fear of the dark”, “Jailbreak” ou “Stairway to heaven”. Dependendo da regulagem dada pelo João, o guincho mudava para o instrumental de “Echoes” ou de “Shine on you crazy diamond”. Também entoava o lá,lá,lá final de “Hey Jude”. Tudo coisa da Mirella!
O casal finalmente deixou a Ilha da Magia e foi viver nos steites. Lá os dois prosperaram no ramo musical, trabalhando numa renomada gravadora. Sabem aquela intro de “Welcome to the jungle” (Guns n’ Roses)? Dizem que é coisa da Mirella! O começo de enxame de abelha de “Wake up” (Rage Against the Machine)? Pura inspiração no carro-de-boi do João Lenão.
O carro-de-boi? Dizem que João o estacionou num engenho
desativado do Rio Vermelho e não se soube mais dele. Talvez tenha sido
desmontado para decorar restaurantes chiques na cidade. Quiçá levado inteiro para
um museu... Ou talvez ainda esteja lá, estacionado no engenho, esperando um
jovem nostálgico colocá-lo de novo em funcionamento. “I love rock’n roll” (Joan
Jett)!



