O carro-de-boi heavy metal do Rio Vermelho

 Por Gunga Rodrigues

 

No final da década de 70, em 1979, para ser mais exato, ainda era um tanto comum se ver e ouvir carro-de-boi andando pelas estradas de terra da Ilha. Iam e vinham pelas retas e curvas do São João do Rio Vermelho, Campeche e Armação do Pântano do Sul. Faziam carretos roceiros, abastecendo de mandioca uns poucos engenhos que ainda “farinhavam”, com seus telhados nevados de polvilho.

Na freguesia da Ponta das Canas, no Jurerê e arredores, também testemunhei a cantoria monótona que embalava o lento, mas obstinado, caminhar dos bois na canga. Isso mesmo, quem já viu carro-de-boi pela estrada, sabe que ele canta ao ser puxado. Na verdade pode ou não cantar. O guincho depende do aperto e lubrificação que se dá aos chumaços, cocão e eixo, havendo regulagem até para não fazer barulho algum. Mas o canto do carro-de-boi, além de dar a toada aos bois, servia também para espantar as “imundiça” que aparecessem pelo caminho. Lobisomem, saci, boitatá e até bruxa não ficavam perto daquela choradeira sem fim.

Do que ouvi falar, o João Lenão foi um dos últimos a deixar o carro-de-boi. Jovem pescador/lavrador do Rio Vermelho, o João era “moderninho”. Nos tempos de folga e nos fins de semana, se enturmava com os surfistas nas praias, tinha prancha e pegava onda. Segundo as más línguas, até puxava um baseado!

Enturmado com a rapeize, o João Lenão também diversificou seu gosto musical. Ouvia o rock progressivo do Pink Floyd e do Supertramp, as baladas dos Beatles, do Queen e dos Stones e até mesmo o rock porrada do AC-DC, Deep Purple e Kiss. Isso sem falar na pauleira do Metallica, Led Zeppelin e Iron Maden. Ai, Jisuis!

Assim descolado, o João atraiu os olhares apaixonados da Mirella da Maria Justina. A Mirella também destoava na comunidade, pois estava “anos luz” à frente daqueles tempos. Linda em seu estilo “dark”, não demorou nadinha para ganhar fama de bruxa. Mas a beleza da Mirella enfeitiçou o João Lenão, que também se apaixonou por ela.

Viveram um romance bonito, a bordo de um carro-de-boi, que agora, à sua maneira, entoava o riff de “Fear of the dark”, “Jailbreak” ou “Stairway to heaven”. Dependendo da regulagem dada pelo João, o guincho mudava para o instrumental de “Echoes” ou de “Shine on you crazy diamond”. Também entoava o lá,lá,lá final de “Hey Jude”. Tudo coisa da Mirella!

O casal finalmente deixou a Ilha da Magia e foi viver nos steites. Lá os dois prosperaram no ramo musical, trabalhando numa renomada gravadora. Sabem aquela intro de “Welcome to the jungle” (Guns n’ Roses)? Dizem que é coisa da Mirella! O começo de enxame de abelha de “Wake up” (Rage Against the Machine)? Pura inspiração no carro-de-boi do João Lenão.

O carro-de-boi? Dizem que João o estacionou num engenho desativado do Rio Vermelho e não se soube mais dele. Talvez tenha sido desmontado para decorar restaurantes chiques na cidade. Quiçá levado inteiro para um museu... Ou talvez ainda esteja lá, estacionado no engenho, esperando um jovem nostálgico colocá-lo de novo em funcionamento. “I love rock’n roll” (Joan Jett)!