O jacaré sonhador da Praia do Santinho

Por Gunga Rodrigues

A Praia do Santinho, no norte da Ilha, desde tempos imemoriais, abriga uma pequenina lagoa - a Lagoa do Jacaré - hoje protegida legalmente da especulação imobiliária pelo Parque Natural Municipal da Lagoa do Jacaré (Lei Ordinária 9948 de 2016). Do tamanho aproximado de um campo de futebol, a Lagoa do Jacaré fica numa área de restinga, abrigada do mar por uma série de pequenas dunas. Obviamente que seu nome derivou da existência do referido réptil, quando por aqui começaram a perambular os primeiros europeus, que chamavam esse lugar de “Aranhas”. Se hoje em dia tais escamosos ainda estão por lá, isso eu não sei...

O que sei é que houve um tempo, daqueles que gostaríamos que voltassem, que habitava nessa lagoa um jacaré sonhador. Ao contrário de seus companheiros das águas escuras, ele ficava horas contemplando o céu e apreciando o voo planado das fragatas lá no alto. “Ai, como eu queria saber voar... Sair dessa lagoa minúscula e ver o mundo lá de cima” pensava ele a todo instante. E assim, o sonhador passava mais tempo fora que dentro d’água.

Num certo dia, pela manhã, ele viu um bando de gaivotas pousado numa duna ali próxima e foi conversar com elas. Queria ele saber o que fazer para poder voar como as fragatas. As gaivotas, que têm as fragatas como suas inimigas, fizeram pouco caso do jacaré e ainda gargalharam na cara dele, como ainda fazem toda vez que lembram dessa história. Disseram a ele que Deus não deu asas às cobras e muito menos aos jacarés e que seu lugar era debaixo d’água, junto com os peixes.

O pobre jacaré ficou muito triste e desiludido e, desanimado, não voltou mais para a lagoa. Um sol escaldante fez naquele dia, secando a pele escamosa do jacaré, que parecia que ia se rasgar ao menor toque. Ao final da tarde, ele estava sem forças e achando que, se morresse, talvez melhor fosse, pois uma vez liberto, seu espírito poderia finalmente voar.

Antes do escurecer, porém, chegou à Lagoa do Jacaré a ondina Irani. Linda, com seus cabelos vermelho-dourados, ela se aproximou do jacaré moribundo e perguntou o motivo dele estar ali esperando seu fim. O jacaré contou seu sonho de voar e a ondina se compadeceu dele. Então lhe disse que, com sua magia, poderia tornar o sonho realidade. Porém, por ele ser muito pesado, teria que abrir mão de sua cauda, suas escamas e sua corpulência. O jacaré não pensou duas vezes e disse de bom grado, que até em mosca ela poderia transformá-lo. Irani lhe disse, contudo, que manteria suas feições, para que as gaivotas mesquinhas, quando o vissem, o reconhecessem como o jacaré que, quase morto, aprendeu a voar. E assim fez. Da pele seca do jacaré, irrompeu um jacarezinho alado, com grandes olhos de rasga-mortalha nas asas de trás, lembrando a vitória de seu sonho sobre a morte.

Os índios carijós, quando encontraram aquele pequeno jacaré voador, feliz da vida pelas árvores, logo o chamaram de jequitiranaboia – a cigarra-jacarezinha!
Já visses uma destas por aí?