Por Gunga Rodrigues
Bem por isso, tem inúmeras crendices associadas à ave. Há quem diga que é o choro de uma bela jovem índia, transformada em ave por um invejoso e ciumento pagé. Outros dizem que é o choro de uma moça feia, que morreu de desgosto, depois de rejeitada por quem era apaixonada. Os mais céticos dizem que é só o curupira, assustando quem se embrenha nas matas. Já os mais supersticiosos, acreditam que é o choro de criancinhas que ganharam sepultura sem serem batizadas. Suas almas vagueiam pela noite e, para não serem pegas por bruxas, se agarram na ave e choram de medo. Quando de dia a ave dorme, feito cepo seco, a alma se redime, vai para o céu e vira querubim. Por causa disso, o choro do urutau é prenúncio de bruxa por perto.
Na época em que eu tinha apiário nos Ratones, em sociedade com outro primo que cursava Agronomia, ouvimos certa vez uma rasga-mortalha na mata próxima. Estávamos lá nas primeiras horas da noite, extraindo mel de favos retirados durante a tarde. Urutau, nunca ouvimos por lá, mas contavam que era comum, naqueles tempos antigos, se ouvir muito choro nas horas mortas. Eram tempos de poucos recursos sanitários e muitas criancinhas acabavam perdendo a vida nas primeiras semanas de nascidas. Isso deixava as bruxas agitadas, querendo pegar essas almas para magia negra. Mas isso, só até a chegada da velha Etelvina na comunidade. Perspicaz benzedeira-curandeira, Etelvina salvou muita criancinha com dicas de higiene e limpeza e com armadilhas para as bruxas. Tão eficazes eram suas armadilhas, que a guilda das bruxas, temendo a perda de companheiras do espaço quimérico, a procurou para firmar um pacto de paz. Com o pacto, a Etelvina acabou com a perseguição às almas das criancinhas. Esse pacto parece ainda estar em vigor, pois o piado de choro macabro do urutau quase não se escuta mais pelos Ratones. Será?

