A guardiã dos segredos

Por Gunga Rodrigues
(um causo ilhéu à moda de Shout – Tears for Fears)

Tem gente que nasce mesmo predestinada, com uma sina tão fortemente arraigada em si, que, sem ela, ficaria irreconhecível. É como se tivessem sido moldadas ao mesmo tempo na concepção. Tô falando, especificamente, do Chiquinho Manémussen, nascido na Costeira do “Prijubaé”, batizado como Francisco Santos Xavier e mais tarde, bem mais tarde, o “Professor Xavier”. E assim era o Chiquinho! Desde pequeno um arqueólogo nato. Em tudo via resquícios de vidas passadas. Numa conchinha furada, numa pedrinha mais polida, num ossinho de peixe de formato estranho... E a Ilha, sabemos, é bem cheia disso, não?

Essa sina do guri ganhou força mesmo quando, na quinta série, adentrou as dependências do Museu do Homem de Sambaqui, no Colégio Catarinense, onde fora estudar. Cara, que lugar fantástico o museu do Padre Rohr. Quantas preciosidades arqueológicas, de povos que viveram por aqui há milênios. E o Chiquinho ficava maravilhado com tudo aquilo. Pontas de flecha, machadinhas de pedra, colares de contas, vasos de barro e, sobretudo, esqueletos! Também teve seu primeiro contato com as inscrições rupestres, aquelas que são notórias na Praia do Santinho. Chiquinho as olhava em fotografias na parede e neurônios adormecidos em sua mente pareciam se conectar, lembrando-lhe de uma linguagem cifrada. Mas, como era muito guri ainda, nada fazia muito sentido.

Obviamente que a brincadeira preferida do Chiquinho era de arqueologia, embora ele nem soubesse direito que tal ciência existia. Enchia tanto o saco dos colegas e amigos, que ganhou o apelido de “Manémussen”, em alusão a Arne Saknussem do livro “Viagem ao centro da Terra”. Era o Chiquinho Manémussen passear em algum recanto ou praia da Ilha, para imediatamente sair à procura de algo extraordinário e revelador. Sempre encontrava algum resquício, porém do homem moderno, com sua insuperável aptidão para largar lixo em qualquer lugar...

E Chiquinho cresceu. Tornou-se um jovem bem apessoado e explorador confiante. Arrancava suspiros de suas colegas de colégio, mas seu CDFismo não o fazia perceber isso. O rapaz prestava monitoria voluntária no Museu do Catarinense e teve oportunidade de visitar várias vezes o MArqueE, na Universidade. Lá viu, pela primeira vez, os desenhos das bruxas do Cascaes. Algo que o marcou profundamente, apesar da aparente pouca relação com seu assunto predileto. Mal sabia Chiquinho, que arqueologia e bruxaria tinham tudo a ver – que o diga Indiana Jones!

Coisa que o jovem Manémussen não perdia oportunidade, era de estar na Praia do Santinho. Ia lá sozinho, de busão, ou com alguma excursão programada pelos padres do colégio. As inscrições rupestres de lá o fascinavam e ele revivia aquela impressão que contavam uma história, uma história emudecida nas pedras, que precisava vir à tona; ser contada e alardeada a todos.

Numa dessas passagens pelos costões do Santinho, numa manhã ensolarada de inverno, vento suli mais frio que gelo lhe enrijecendo os ossos, encontrou, empoleirada numa pedra alta, uma garota de pele morena, cabeleira lisa e olhos negros levemente puxados. Uma garota com sangue indígena, com certeza. Kauane o observava tentando decifrar as linhas gravadas nas pedras, quando lhe disse, do alto da pedra, que aqueles riscos celebravam Iara e a pesca da tainha. Manémussen olhou bem cético para Kauane, com aquela expressão “tax tola!” nos olhos. A garota lhe sorriu e perguntou se não acreditava nela, pois ele já deveria saber disso, dado que ele não era como os outros exploradores de mente fechada. Ele ganhara um dom e deveria saber usá-lo. Não deveria festejar pelo que todos achavam que sabiam. Em seguida, ela desceu para o outro lado da pedra e sumiu de vista.

Quando o rapaz voltava para casa, recebeu no celular uma mensagem de Kauane, dizendo que essa noite ele teria uma revelação. Seria em sonho, que ele viajaria àqueles tempos remotos para testemunhar a história. Chiquinho Manémussen, “cientista”, meio que desconsiderou a mensagem e ficou mesmo intrigado, é como a guria tinha seu número de celular. Vai ver conhecia alguém de sua turma no Catarinense...

A noite veio e Manémussen sonhou. Em preto e branco - pois é, dizem que não sonhamos colorido...- observava a paisagem do alto da pedra em que vira Kauane. Abaixo estava um grupo de Homens do Sambaqui. Riscavam as pedras, ora falando do mar e suas ondas, ora das redes que teciam e dos peixes que pegavam. Quão generosa era Iara, a mãe d’água, que lhes provinha comida em abundância, numa época do ano em que Ceuci os abandonava. E no lascar de pedras, a imagem de Iara também era deixada no rochedo.

Chiquinho acordou impressionado. Como fora sugestiva a conversa com Kauane, que ele até sonhara com o que ela lhe revelara. Uma lenda indígena, de um povo anterior aos Carijós... Será que era isso mesmo? Que um dia finalmente descobriria que aquelas escritas rupestres contavam mesmo essa história?

Outro tempo se passou e o agora jovem acadêmico de arqueologia estava novamente fuçando nos costões do Santinho. Fotografava para processar em computador os rabiscos na pedra. A imagem do “Santinho” lhe era inequívoca, embora já não estivesse mais ali, no sítio arqueológico. Seria ela Iara, a mãe d’água? E os outros rabiscos nas pedras? Mar, redes e peixes? De súbito, lhe apareceu a jovem Kauane. Como estava linda a moça. Com uma maquiagem diferente nos olhos, remontando àquelas jovens índias amazônicas, simplesmente fascinante. Ela o reconheceu e perguntou se ele já havia divulgado a história contida na escrita rupestre. Falado bem alto para todo mundo ouvir... O rapaz disse que não. Kauane disse então, que adoraria vê-lo quebrar seus paradigmas e acreditar no que estava diante dos seus olhos e lhe lascou um beijo.

Chiquinho Manémussem sentiu seu corpo flutuar e rodopiar no ar, em meio a nuvens, flashes e faíscas vermelhas. Quando parou, estava com a moça na mesma pedra do costão do Santinho, porém há milênios antes do tempo. Dali, via canoas do Homem de Sambaqui jogando redes ao mar e outras voltando com fartura de tainhas. Kauane lhe perguntou se agora ele mudava de idéia e acreditava. Se, de uma vez por todas, divulgaria, alto e em bom som, o que os escritos rupestres contavam. Sim, lhe disse Manémussen; se ele sobrevivesse àquilo para contar a história, revelaria para todos esses achados. E assim fez ele, revelou suas pesquisas ao mundo, ganhou notoriedade e passou a lecionar o que de melhor sabia. Sua Kauane o acompanha até hoje e, quando Professor Xavier tem algo bombástico a revelar, pode ter certeza que levou um puxão de orelha de sua feiticeira ameríndia. Ainda que na forma de um gostoso beijo sobrenatural.

Shout - https://www.youtube.com/watch?v=Ye7FKc1JQe4