Lua de fogo

Por Gunga Rodrigues
(um causo ilhéu à moda de
Bad moon rising - Creedence Clearwater Revival)

Ao camarada e ‘bróder’ César José Fanton:
Dizem que naqueles tempos de antesdonte, quando padre só aparecia nas comunidades uma vez no mês, morava, num arrabalde ao sul da Ilha, bem lá no sul mesmo, um caboclo meio iluminado. Chico Cirilo era como o tratavam. Ele tinha bons dotes de curandeiro e velada fama de feiticeiro, sendo cultuado por aquela manezada do local. Tratava com esmero e carinho os enfermos, provendo-lhes alívio para seus males, quer do corpo, da alma ou das tripas. Também sabia olhar o céu e espreitar a natureza, antevendo com certa exatidão o comportamento do clima.

E aconteceu, num daqueles invernos em que as tainhas arremetem loucas para a costa, de despontar na linha do nascente uma lua cheia avermelhada. Chico Cirilo estremeceu quando a viu surgir no gélido anoitecer esgazeado de julho. Tudo estava calmo e apenas uma brisa fria soprava de terral, mas os sentidos de Cirilo estavam irrequietos. Aquela lua era presságio de mal tempo. Um mal tempo incomum que chegaria rápido e devastador.

Chico Cirilo deixou seu casebre na encosta da Caverna e correu para o boteco do Meira, onde os camaradas se reuniam antes de sair pro lanço. A turma da voga espantou-se com a chegada do Cirilo. O que teria acontecido para ele estar ali naquela hora? Cirilo não perdeu tempo e foi ter com o Palombeta, patrão de duas das lanchas que zarpariam para o cerco. Advertiu-o, com insistência, que não fossem ao mar naquela noite. Uma virada brusca de tempo ocorreria e eles estariam em perigo de morte. Cirilo pressentia que um fenomenal pampeiro sopraria pelas barras, encastelando ondas violentas, varrendo tudo à sua frente. Chuva forte também viria, daquelas de transbordar todas as sangas e ribeiros.

Palombeta escutou meio descrente. Mal fazia que o tempo limpara, depois de quase uma semana de vento sul com chuva... Como que tornaria a encrespar de novo? Além do mais, era preciso aproveitar o momento, pois os cardumes fervilhavam na enseada.

“Vai por mim, Palombeta” – disse Cirilo – “não saia essa noite. Tem uma má lua subindo!” Palombeta não era homem descrente e nem desafiador das coisas sobrenaturais que não compreendia, mas a certeza da pesca farta preponderava. Contudo, ele percebeu o olhar de terror de alguns de seus camaradas e dispensou-os. Então, clamou pelos mais corajosos e, junto com eles, planejou cercar um cardume. Cirilo advertiu-o novamente e, vendo a obstinação de Palombeta, aconselhou-o a ir bem preparado na lancha, inclusive com tralhas para se agarrarem caso soçobrassem. Palombeta lhe disse que tomaria essa providência e que, se o mar os chamasse, era porque a hora chegara... 

A lancha partiu sob aquele luar avermelhado, sendo observada da praia pela turma de terra, inclusive Chico Cirilo. Iniciaram o cerco, lançando a rede a estibordo. Estavam para finalizar a tarefa quando se ouviu, rufando pelos costões, o pampeiro desesperado. A barra escureceu e relâmpagos faiscaram no horizonte. Palombeta e camaradas se aterrorizaram. Estavam ainda muito longe da praia e as ondas os engoliriam. Mesmo assim, aprumaram a lancha pra terra e deram toda carga aos remos. As vagas pegavam a baleeira pela popa e a proa quase mergulhava para as profundezas. Palombeta no castelo e camaradas nos remos se prepararam para o pior.

Cirilo, na praia, sentiu o desespero dos embarcados, compadeceu-se e resolveu intervir. Desenhou um grande signo saimão na areia e pôs-se no meio. Ergueu os braços e, sereno, desatou uma ladainha. Hoje seria dente por dente, olho por olho! Enveredou um Creio em Deus Pai pelo avesso e depois rezou com muita propriedade a oração das treze verdades. Finalmente, acendeu seu palheiro, deu um trago e disse em meio a baforadas de fumaça: “Treze raio tem o soli, treze raio tem a lua, sai demônio pros inferno, que essa alma não é tua!”

O pampeiro amainou, o bravio das ondas cedeu e o véu de nuvens se dissipou. Chico Cirilo olhou a lua cor de prata, se levantou e disse para si mesmo, indo embora: “É Zeca Pampeira... Não foi dessa vez que tu veio botá banca na minha freguesia. Saiba que no Pantano, sempre terá gente forte pra te enfrentá! Excomungada!”