Por Gunga Rodrigues
(um causo ilhéu à moda de Bad moon rising - Creedence Clearwater Revival)
Dizem que naqueles tempos de antesdonte, quando padre só aparecia nas comunidades uma vez no mês, morava, num arrabalde ao sul da Ilha, bem lá no sul mesmo, um caboclo meio iluminado. Chico Cirilo era como o tratavam. Ele tinha bons dotes de curandeiro e velada fama de feiticeiro, sendo cultuado por aquela manezada do local. Tratava com esmero e carinho os enfermos, provendo-lhes alívio para seus males, quer do corpo, da alma ou das tripas. Também sabia olhar o céu e espreitar a natureza, antevendo com certa exatidão o comportamento do clima.
A lancha partiu sob aquele luar avermelhado, sendo observada da praia pela turma de terra, inclusive Chico Cirilo. Iniciaram o cerco, lançando a rede a estibordo. Estavam para finalizar a tarefa quando se ouviu, rufando pelos costões, o pampeiro desesperado. A barra escureceu e relâmpagos faiscaram no horizonte. Palombeta e camaradas se aterrorizaram. Estavam ainda muito longe da praia e as ondas os engoliriam. Mesmo assim, aprumaram a lancha pra terra e deram toda carga aos remos. As vagas pegavam a baleeira pela popa e a proa quase mergulhava para as profundezas. Palombeta no castelo e camaradas nos remos se prepararam para o pior.
Cirilo, na praia, sentiu o desespero dos embarcados, compadeceu-se e resolveu intervir. Desenhou um grande signo saimão na areia e pôs-se no meio. Ergueu os braços e, sereno, desatou uma ladainha. Hoje seria dente por dente, olho por olho! Enveredou um Creio em Deus Pai pelo avesso e depois rezou com muita propriedade a oração das treze verdades. Finalmente, acendeu seu palheiro, deu um trago e disse em meio a baforadas de fumaça: “Treze raio tem o soli, treze raio tem a lua, sai demônio pros inferno, que essa alma não é tua!”
O pampeiro amainou, o bravio das ondas cedeu e o véu de nuvens se dissipou. Chico Cirilo olhou a lua cor de prata, se levantou e disse para si mesmo, indo embora: “É Zeca Pampeira... Não foi dessa vez que tu veio botá banca na minha freguesia. Saiba que no Pantano, sempre terá gente forte pra te enfrentá! Excomungada!”
