Traga-me à vida

 Por Gunga Rodrigues
(um causo ilhéu à moda  de
Bring me to life - Evanescence)

Foi espairecer no belvedere do Morro do Padre Doutor. Precisava apreciar uma vista do horizonte e ali lhe pareceu ser o lugar ideal. Ficou horas observando a paisagem. O Canto da Lagoa, margeado por mata atlântica; a estreita faixa de areia da Joaquina, donde as dunas se espalham ao norte, protegidas pelo Morro do Retiro; a Avenida das Rendeiras, até o estreito canal que divide a Lagoa; o pedacinho da Ilha do Xavier ao largo da Praia Mole e, ao fundo, o marzão azul até os confins do horizonte. Aquela paisagem lhe acalmava a alma e fazia esquecer tudo em volta.

Assim absorto estava, quando lhe passou pelos olhos aquele vulto alvacento. Firmou o foco e viu o grande pássaro, de plumagem branca, planando morro abaixo. Acompanhou seu voo até perdê-lo de vista, já praticamente sobre a Praia Mole. Algo realmente inusitado, que nunca testemunhara: um urubu branco voando por essas bandas. Nem sabia que poderiam existir tais urubus brancos...

Chegou em casa já noite, sentindo-se estranho. Parecia estar sendo observado e como que ouvindo um chamado. Deitou-se no quarto escuro ouvindo um “rock-phantom” (https://www.youtube.com/watch?v=5E-N8RSWwqU) e acabou dormindo. Acordou tarde da noite, todos já dormiam. O celular tremia em sua mão. Olhou a tela e, na escuridão, viu apenas o escrito “Traga-me à vida”. Pensou estar sonhando... Mas era real. A tela se apagou. Então, se levantou, foi à cozinha, bebeu água e beliscou uma guloseima. Agora sim, se aprontou em definitivo para dormir, colocou pijama e voltou para o quarto. Estava para por o celular sobre o criado-mudo, quando o mesmo tremeu novamente. “Traga-me à vida” brilhava na tela. Caraca, o que será isso? - pensou. O aparelho voltou a desligar. Deitou-se e sonhou.

Imagens perdidas e bagunçadas. Não conseguia definir nada. Sentia o mar, o barulho de ondas irrompendo nas pedras. Um vulto branco. Uma mulher, uma jovem mulher. Um chamado, uma agonia, uma falta de ar... Finalmente acordou-se. Estava aflito e em seguida aliviado. Fora só um sonho. Ainda dava tempo para uma sonequinha.

Passou a manhã com aquela mesma sensação estranha. Precisava socorrer alguém. Alguém lhe chamava em sua mente. No intervalo entre aulas olhou o celular. “Traga-me à vida” brilhava na tela. Que doideira, isso não faz sentido. Trazer quem à vida? E assim se sucedeu. A cada vez que acessava o aparelho “Traga-me à vida” aparecia na tela. Julgou ser alguma mega campanha publicitária e não deu mais muita bola. Mas a sensação estranha persistia.

Novo sonho lhe veio à noite. Uma canoa enfeitada, uma linda noiva a bordo indo para a igreja. Seus longos cabelos pretos esvoaçando com o véu. O lindo vestido branco com mangas separadas, um esplendor. De súbito, um violento pampeiro surgia. As águas se encrespavam; a canoa bambeava num crescente, até soçobrar. A noiva era levada ao fundo frio e lá adormecia.
“Salve-me. Chame meu nome e salve-me da escuridão. Faça meu sangue fuir e salve-me do nada que me tornei”!

Aquele chamado estava vivo em sua mente quando acordou. Ligou o celular e “Traga-me à vida” apareceu. Em seguida, abriu-se um roteiro, sugerindo percorrer a Trilha do Gravatá. Era sábado e estava quente. Resolveu ir. Saiu de busão depois do almoço. Desceu no Caminho dos Pescadores e seguiu a trilha. Chegou na Praia do Gravatá cansado e tomou um banho de mar. Depois subiu nas pedras e foi até a grande laje que avança ao mar. Ali permaneceu o resto da tarde, observando as ondas, remoendo seu sonho esquisito.

Quando deu por si, o sol já se punha e estava sozinho na laje. Era hora de voltar. Levantou-se e viu o que não esperava. Uma jovem, vestida de noiva, estava na beira do costão. Os longos cabelos pretos como que secos depois de molhados em água salgada. E estava linda assim, mas também abandonada e triste assim. Parecia que queria se jogar. Rapidamente, foi ao seu encontro. Pegou em sua mão e sentiu toda a tristeza que ela sentia. Então lhe disse que estava ali. Que tinha vindo até ali por ela. Que não a deixaria ir embora de novo. Encheu de amor seu coração e resgatou seu espírito da escuridão. Chamou-a de Rosa Maria e a trouxe de volta à vida.