A pipa invencível da Pandorga

Por Gunga Rodrigues

Na minha infância querida, na Rua Angelo La Porta, lá nas encostas do Morro da Cruz, aprendi a fazer pipa com a Iara, uma ajudante que a mãe tinha lá em casa. Proveniente das comunidades morro acima, a Iara sabia fazer pipa e, certo dia, a meu pedido, fez uma pra mim, me ensinando. Olha, lição tão bem dada, que até hoje sei fazer pipas e barrelotes de vários formatos. Tanto, que no Colégio de Aplicação da UFSC, onde estudei, ganhei um campeonato de pipa que lá teve em 1981 (barrelote Zagucho).

Esse campeonato veio no rastro de alguns festivais de pipas e pandorgas, que a prefeitura de Florianópolis organizava e promovia no aterro da Baía Sul, lá pela década de 1980. Eram eventos inovadores e garantidos, pois nunca faltava vento em Floripa. Ou tinha nordestão de papo amarelo, ou vento suli. Eu lembro de, ao menos, ter ido num destes festivais. Tinha pipa de tudo quanto era jeito, tamanho e cor. Pequenas, médias e gigantescas. Tradicionais, caixas e barrelotes. Linha fina, linha 10 e linha ursa. Rasantes, média altura e estratosféricas. Algo bem bacana de se ver.

Mas o que pouca gente sabe, e que fiquei sabendo não faz muito tempo, é que tinha uma pipa impossível de ser cortada e que sempre levava o troféu de “talho”. Era a pipa da Pandorga, branca com uma faixa diagonal vermelha, que seu neto empinava no festival. Floripa teve várias “Pandorgas”, mas essa era uma senhorinha negra que morava no Morro da Caixa. Quando ainda mocinha, aprendeu a fazer pipa com seu avô, que tinha ares de feiticeiro. Ele lhe ensinou a balancear bem as varetas, fazer a armação, pregar o papel de seda, por a rabiola, arcar a pipa e, acima de tudo, medir certo o tirante. Seu avô também lhe ensinou a fazer um preparo (cerol) com pó de mármore branco, que deixava a linha uma navalha. Mas o maior segredo, era uma mandinga vodu, que tornava a pipa invencível. Era como se ela ganhasse vida, se esquivando e passando o preparo na linha das adversárias. No quengo então, era imbatível! Às vezes, cortava duas numa só descida. Assim invencível, não tinha pra ninguém.

Mas num destes festivais, houve um embate digno de menção. Estava lá a pipa da Pandorga a cortar as adversárias, até que surgiu nos céus a pipa do Chico Beiça. Era uma “Jolly Roger” (preta, com a caveira com ossos cruzados branca) avassaladora. Tirou do céu o que ainda restava de pipas, ficando só ela e da Pandorga. E as duas foram para o embate. Cruza pra cá, cruza pra lá, quengo até quase o chão, descaída; uma dança frenética e nada de corte. Até que uma hora as duas se entrelaçaram, juntaram as rabiolas e se cortaram, uma à outra. Estavam bem altas e lá foram as duas grudadas, sendo levadas pelo nordestão Baía Sul adentro, até não serem mais vistas. Uns acharam que elas caíram no mar, outros que elas foram até o Aririú. Outros juraram ter visto elas caírem na Ilha do Largo. Mas não foi nada disso. Em 1995, uma galera que subiu a Cambirela, achou presa numa árvore, lá em cima da montanha, uma pipa estampada com a bandeira pirata, com uma faixa vermelha cruzando por sobre a caveira com ossos cruzados. Soltaram-na da árvore, tiraram uma foto, mas quando deu uma rajada de vento, a pipa se soltou da mão que a segurava e garrou o céu. Foi se embora lá pra Serra do Tabuleiro, onde não seria mais incomodada.

É meus caros, magia vodu eterna! Podem acreditar!