Bicho-papão, sai de cima do telhado...

Por Gunga Rodrigues
(um causo ilhéu à moda de Enter Sandman -
Metallica)

O Duda era um manezinho magrelinho dos Coqueiros que se pelava de medo do escuro. Era anoitecer, pra ele se refugiar dentro de casa e não sair na rua por nada. Desacompanhado então, nem que a vaca tussa... Achava sempre que algum monstro, bicho-papão ou coisa parecida o espreitava pelos cantos escuros. Na cama, só ferrava no sono depois que sua mãe rezasse com ele a oração do Anjo-da-Guarda e ele cobrisse bem com a coberta a orelha que ficava virada pro lado oposto ao travesseiro.

Suas duas irmãs achavam graça naquilo e lhe perguntavam por que cobria a orelha? Para nenhum monstro puxá-la de noite era sua resposta; que só fazia as irmãs rirem mais ainda. E tinha um sonho que o assustava. Via, de noite, lua cheia em Canasvieiras, uma moça, de camisola branca, sobre o telhado de uma casa. Uma moça que o levaria a um lugar distante, mas que na confusão do sonho ele não entendia. Era de arrepiar os cabelos e ele acordava assustado, mas depois se aliviava ao constatar que era só sonho. Uma vez, agoniado, contou ao irmão mais velho o sonho estranho e este, sacaneando para deixá-lo mais amedrontado, lhe disse que era uma bruxa que viria buscá-lo algum dia.

Nova noite veio e Duda não ia pra cama de jeito nenhum. Sua mãe percebeu a inquietação e levou-o para dormir. Ele a indagou sobre as bruxas. Que bobagem menino! Isso não existe! É só coisa pra te deixar com mais medo! Tentou tranquilizar sua mãe. Agora vamos rezar:
- Anjo-da-Guarda...
- Anjo-da-Guarda.
- Meu bom amiguinho...
- Meu bom amiguinho.
- Guiai-me sempre...
- Guiai-me sempre.
- No bom caminho...
- No bom caminho.

Duda cresceu, mas o medo do escuro não perdeu. Está grande e mais consciente e, pela própria vergonha na cara, encara agora a escuridão, mas sempre ressabiado. Se lembra da época de criança, do sonho com a moça no telhado, e reza ao Anjo-da-Guarda.

E está Duda voltando a pé pra casa. Perdeu a hora e o último busão da noite. O caminho é deserto e ladeado de mato. Seus ouvidos estão alerta. Ouvem até o que não devem... Ele passa ao lado da casa abandonada e lá está ela, em cima do telhado. Seu velho pesadelo. Ela desce flutuando e pega sua mão, seu rosto ele não consegue ver. Ele flutua, a neblina toma conta da paisagem, ela o conduz para um lugar desconhecido. Ela se vira e ele vê seu rosto. Sua face horrenda enrugada com olhos mortos esbugalhados. Ele solta sua mão e vê seu travesseiro lá em baixo. Está caindo em sua cama, mas cai no mar e afunda. Não consegue respirar e começa a se afogar. Agita os braços tentando subir à superfície... 

Sua linda esposa, de camisola branca, o acorda. Estava ele se debatendo na cama agarrado ao travesseiro.