Por Gunga Rodrigues
Nas minhas primeiras noites de breu total, lá pelos idos de
1974, junto aos primos na casa de praia de meu avô em Canasvieiras, ouvi
conversas de fogo-fátuo. Algo fantasmagórico que ocorria com frequência por
aqueles lugares escuros do interior da Ilha, especialmente nos alagadiços,
brejos e mangues.
“É um fogo azulado que dança e que vem te espionar. Fica
quieto que ele vai embora. Se tu correr é pior, aí ele corre atrás de ti pra te
pegar!” Haja medo e pavor pra aquela gurizada não se aventurar por praças
desconhecidas.
O fogo-fátuo também era tido como aparição de boitatá.
Embora o boitatá fosse mais pavoroso. “Não adianta ficar parado pra ele não te
pegar!” Além disso, o boitatá ilhéu, que por vezes ganha as fuças e o corpo de
um boi, corria nas praias, na pancada da maré, um lugar não tão frequentado
pelo fogo-fátuo.
Mas a melhor de fogo-fátuo era uma que contavam que, nos
tempos de antanho, morava uma senhorinha na praia da Lagoinha do Leste. Sinhá
Isalina o nome dela. Obviamente, uma senhorinha morando sozinha, na erma
Lagoinha do Leste, para o caboclo matuto ilhéu era uma bruxa. Mas ela vivia no
seu canto e, até onde se sabia, mal não fazia...
Ocorreu que deram um lanço de tainha, dos grandes, na boca
da noite, no Matadeiro. O dono da lancha, o Zezo da Clarissa, devia um favor
pra sinhá Isalina e pensou em retribuir com algumas tainhas ovadas. Certa vez,
numa tarde de temporal, ele teve que aportar a baleeira na praia da Lagoinha e
sinhá Isalina o acudiu e aos camaradas da pesca com abrigo, café e beiju.
Depois, compadecida com a cara de pavor que ficaram os tripulantes, fez umas
rezas na beira da praia e o temporal amainou, na mesma hora. O Zezo mais a
turma pôde embarcar e voltar em segurança pro porto da Armação.

E tava lá o Zezo, com duas gordas tainhas ovadas, uma em
cada mão, sem saber como despachar para a Isalina. Então pensou “benzedêra,
curandêra e feiticêra, a Isalina bem que podia mandá um despachante pra buscá
essas tainha!”. Nisso apareceu um fogo-fátuo dos grandes, vindo da Armação,
atravessou veloz para o Matadeiro. Veio na direção do Zezo, passou por ele,
catou as duas tainhas e correu serelepe pela trilha da Lagoinha do Leste. A
turma da praia olhou espantada aquele corisco azulado e depois mais espantada
ainda ao ver o Zezo com os olhos esbugalhados e os cabelos de pé, feito
vassoura piaçava!
É meus caros, com o despachante de sinhá Isalina não tinha
delongas.