Por Gunga Rodrigues
Da série de pássaros místicos e assustadores das Terras do Desterro, faltou falar da rasga-mortalha. Também conhecida por coruja-da-torre, ela não é tão tenebrosa quanto o urutau, mas tem uma associação mais direta com as bruxarias lançadas sobre os seres viventes. Tanto que a rasga-mortalha é conhecida assim não só aqui, mas pelo Brasil afora. No Pará, por exemplo, é anúncio de Matinta Perêra, a poderosa e temida bruxa que assombra as Terras da Amazônia. Lá, como aqui, também é sinal de mau agouro e presságio de morte na família.
O nome do bicho vem justamente do piado ser parecido com alguém rasgando a mortalha – o pano com o qual se envolviam os defuntos antes do enterro. É meu chapa, naqueles tempos de antesdonte não tinha caixão nem funerária pra todo mundo! E mortalha rasgando é “walking dead”!
Para espantar rasga-mortalha, os entendidos recomendavam um bom esconjuro e fazer algum barulho estridente, tipo bater numa lata de tinta vazia. Lógico que o barulho da lata era só um mero detalhe, o que valia mesmo era o esconjuro!
Nos antigamente do Campeche, diziam ser muito comum escutar rasga-mortalha, embora o piado agourento da coruja fosse ouvido por toda a Ilha. Mas, no Campeche, a coisa pegava. Acho que era por causa do mato do Morro do Lampião. É, aquele morro solitário que alguns exotéricos mais ferrenhos dizem esconder uma pirâmide maia! Lá tem muita pedra no meio das árvores e isso deve ser bom pra rasga-mortalha.
Mas os mau-agouros e quebrantos no Campeche ficaram com os dias contados, quando para lá foi morar, na altura da Ponta de Areia, a Zeca do Calisto. Um verdadeiro alívio! Famosa benzedeira, curandeira e feiticeira, a Zeca logo fez calar a “rasgação de seda”, quer dizer, de mortalha! Não só no Campeche, mas na Armação e no Rio Tavares, onde ela também atendia. Muito criativa, a Zeca sempre inventava novos esconjuros e, quando escutava uma rasga-mortalha, logo entoava inéditas ladainhas, batendo forte na sua lata de querosene.
“Se aquieta rasga-mortalha/ Que minhas palavras são como navalha/ Corta rápido teu agouro/ Como o fio de cabelo mouro/ Some agora dessa casa, assombração/ Que ninguém aqui vai levar extrema unção/ Santa Lúcia bem querida/ Santa Clara alvissareira/ Protejam essa casa/ Do chão à cumeeira!”
Se era noutro dia...
“Treze raio tem o soli/ Treze raio tem a lua/ Vai timbora rasga-mortalha/ Sai do meio da rua/ Leva teu agouro pro Lampião/ Que aqui ninguém precisa de caixão/ São Paulo, São Pedro e São Bartolomeu/ Protejam esse filho de Deus!”
Em noite de lua cheia...
“Rasga-mortalha agourenta/ Que te parto ao meio as venta/ Não me chame lobisomem, nem saci, nem curupira/ Fecha logo esse teu bico e vai pousar na sucupira/ E lá fique por enquanto/ até desfazer teu encanto/ Bem me disse São Mateus, São Lucas e São Martinho/ Ande sem medo pela estrada e siga teu caminho!”
E aqui eu deixo o meu...
“Bendita Zeca do Calisto/ Mais poderosa que três marés de cisco/ Nem repentista era/ Mas na rima se esmera/ Batia lata e cangalha/ Pra espantar rasga-mortalha/ E não ficava em apuro/ Pois tinha sempre novo esconjuro/ Muita gente ajudou/ E bom fim levou/ Subiu logo lá pro céu/ Onde zela pelo seu povo ilhéu!”