Mábula – a bruxa das profundezas

Por Gunga Rodrigues

Essa história, dizem ser verídica e ocorrida há muito tempo, nas águas da Barra da Lagoa...

A exploração pesqueira da Barra é quase tão antiga quanto a comunidade estabelecida na própria Lagoa da Conceição. Saída natural para o mar o canal da barra era fundo e navegável, e permitia a saída das grandes canoas de voga para o mar aberto. Pequenas canoas caiçaras também se aventuravam naquelas águas costeiras.

E foi numa dessas que o compadre Virgilho, mais o cunhado Lico e o sobrinho Tuca, saíram para botar uns espinhéis. Singraram cedo o canal e aproveitaram o mar calmo e o terral fraco, de uma calada de vento sul, para ir a panos até o Xavier. Ao largo da ilhota, lançaram dois espinhéis, cada qual com 150 anzóis. Na espera, fundearam no lado sul do Xavier para pescar de caniço. Decorrida a manhã e, antes que o nordeste chegasse soprando forte, foram recolher os espinhéis. O primeiro a ser puxado até deu uma boa quantidade de peixes, compensando a viagem. Já o segundo foi sendo puxado meio vazio.

Era assim mesmo, se conformava o Virgilho, sorte num e nem tanta noutro. Estavam nos finalmentes da puxada, quando sentiram um tranco na canoa. Virgilho viu a linha do espinhel puxar seu braço para baixo, Lico quase caiu do banco e Tuca por pouco não foi ao mar. A canoa começou a ganhar velocidade, sendo puxada para o norte. Os três ficaram estupefatos, enquanto tentavam raciocinar o que estava acontecendo. Alguma coisa grande parecia ter ferrado no espinel, levando a canoa consigo. Lico perguntou ao cunhado se ele estava vendo o que puxava a canoa e este disse que não. Virgilho tentava puxar a linha, mas não conseguia, estava muito pesada. A canoa seguia célere para norte. Tuca, inexperiente, se apavorou. Lembrou-se das histórias de bruxa contadas pelo velho Maneca nas noites de rancho e começou a rezar.

- É bruxa - disse ele aos mais velhos. É a bruxa das profundeza! O Maneca já falou dela...
- É nada - disse-lhe o pai.
- Ó-lho-lhó Tuca, deve de ser é um cação dos grandes - falou o padrinho.

Pelo sim pelo não, Virgilho já pegara uma faca para cortar a linha, caso visse que não conseguiriam puxar o cação. De repente, aquilo que puxava a canoa subiu à superfície e os três puderam ver, pouco à frente da canoa, aquele enorme ser escuro, como que com um manto negro a flutuar sob a água.

- É ela! - berrou Tuca, levando as mãos ao seu breve.

Virgilho persignou-se e Lico caiu de joelhos. O ser voltou a afundar na água e Virgilho, mais que depressa, cortou a linha do espinhel. Eles já estavam na altura do canal da barra, deram todo pano ao nordeste que já soprava e rumaram para casa. Os camaradas da pesca, ao ver os três chegarem apavorados, correram a acudir. Virgilho, então, narrou-lhes o acontecido e descreveu, em detalhes, o que viram.

- Pensa numa coisa medonha - começou Virgilho. Parecia uma arraia, mas não era. Arraia eu conheço. O que nós vimo era muito grande pra ser arraia. Devia de tê umas duas braça de uma ponta à outra do manto e era preta feito um morcego. E as oreba de todo tamanho nos lado da cabeça, então... Nunca vi coisa mais feia! E tinha força a desgranhenta. Puxou nós do Xavier até a boca da barra.
- Foi isso memo – interveio Lico, ante a cara de espanto dos ouvintes. Nós até tavo achando que era um baita dum cação... O meu fio até apavorou ao ver o demonho embaixo d’água.
- Era a Mábula! – disse o Maneca, que chegara no meio da conversa. Eu já vi ela por esse mar. É uma bruxa das profundeza. Cês tivero sorte dela não tê gostado doceis, se não, nem tariam aqui contando essa prosa...
- Viu, pai! Não te disse que era a bruxa das profundeza? - quis confirmar Tuca.
- Acho bom nós recolhê as rede por uns dia – recomendou o Maneca. O tempo tá bom pra carpi e a gente pode se ocupá das roças. Até a Mábula ir procurá pescadô em outras freguesia.

E assim fez a turma da Barra. Largaram a pesca por uns dias para cuidar das roças. O Maneca era um sujeito vivido, sabia das coisas, naturais e muito além delas, e não era de bom alvitre não lhe dar ouvidos.

Hoje sabemos que a Mábula, nada mais era que uma arraia jamanta, perdida por essa recortada costa da Ilha de Santa Catarina. Mas na época do Virgilho, ainda não tinha TV para assistir “mundo animal”, nem tão pouco, tinha esse aparelhinho que nos mostra tudo, na mesma hora, na palma da mão. 

- Arraia jamanta? Sei... Conta outra, istepô!