Por Gunga Rodrigues
Naqueles tempos de outrora, em que a biologia só era estudada por quem ingressava numa faculdade de medicina na Europa, os bichos e plantas só eram conhecidos por seus nomes comuns, e olhe lá! Quando não se sabia o nome, acabava se inventando um, ou então se perguntava a algum carijó catequizado. Assim foi com a anta, quando vista pela primeira vez, no Alto Vale do Itajaí, pelos colonos alemães recém-chegados. Sem nunca tê-la visto, nem saber que bicho era, deram-lhe o gracioso nome de “zentraler Schnauzerüssel” ou algo parecido. O idioma alemão é assim bem peculiar mesmo, nervosinho, e toda palavra parece te mandar pra casa do chapéu (embora possa soar bem “meigo” na voz de Nena em 99 Luftballons)!
Quando o alemão foi traduzido pelos poucos que sabiam falar português, a anta virou o “trombudo central”. Quem vai para o oeste do Estado, pela BR 470, passa pela cidade de Trombudo Central! Por lá também tem o Braço do Trombudo, referência a um afluente de rio onde tinha anta, e outros “trombudos” mais, onde o animal era visto pelos colonos alemães.
Mas por esse tempo, também aconteceu de aparecer, na Lagoa da Conceição, um monstro marinho, jamais visto anteriormente. Muito pavor e apreensão causou o tal monstro desconhecido, que se deitava nas prainhas e subia em pedras rasas da margem. Primeiro pensaram tratar-se de uma bruxa, mas logo viram que não, apesar da aparência “humana” da face. O tamanho era o de um boi gordo. Tinha o corpo robusto, mas não tinha pernas e os braços eram como nadadeiras de baleia. No final do corpo tinha dois grandes pés, parecidos com os dos patos. A cara lembrava a de um homem careca, porém com uma pesada tromba no focinho.
É um boitatá marinho! – diziam uns. Tás tolo, não tem chifre! – argumentavam outros. É um filhote de baleia com cachorro. Ói, ó, ó! Tás doido, tás? É um diabo marinho! – e corriam a chamar o padre para esconjurar o demônio. Não! É uma sereia dos inferno! – e jogavam água benta no animal. Foi então que chegou o Karl Güntertag, que estava de passagem pela Lagoa e emanava certo ar intelectual. E ele foi taxativo: “Es ist ein marine zentraler Schnauzerüssel”. Traduz aí, o istepô! É uma “trrombudo centrral marrinha”.
Ãhn, ãhn, ãhn! Nada disso! Mal sabia o Karl que o bicho era mesmo um “See-Elefant”, isso mesmo, um elefante marinho. O animal provavelmente se perdeu em alto mar, devido a um ciclone extratropical – um vento suli metido a besta! – e acabou vindo para costa, adentrando o canal da barra para descansar. Como aquela manezada de antesdonte nunca tinha visto e não sabia que bicho era – afinal não passava Mundo Animal na TV! - ficaram inventando coisa. Depois de um tempo o elefante marinho garrou rumo pra casa e não se soube mais dele.
Esse acontecido tem tudo para ser verídico e é contado por outros manés desterrenses. O evento em si, é perfeitamente plausível. Pinguins, leões e lobos marinhos da Patagônia argentina chegam com frequência por estas bandas no inverno. Essa mesma rota pode, tranquilamente, ter sido seguida na viagem de um elefante marinho muito doidjão! Só, brother!