Por Gunga Rodrigues (vulgo Dotô)
Seu
Batista era um senhorzinho de idade já um tanto avançada que morava em
Itaguaçu, quase no fim da praia, onde fica a Pedra Bunda. Na verdade,
ele foi um dos pioneiros a veranear nessa praia. Morava na cidade, mas
tinha casa de praia nesse lugar. E agora, ele estava morando ali em
definitivo. Seu Batista era um amante das pescarias e não demorou a
arrumar uma canoa para voltar a pescar em Itaguaçu – a Cremosa.
Cremosa
era uma caiçara temperamental! De quilha torta, era desobediente até, e
isso seu Batista logo constatou, nas primeiras remadas. Também era
exigente, e fazia birra se fosse contrariada. E contrariada sempre era,
pois Seu Batista queria ir para um lado e ela para o outro. Ele vencia a
contenda, mas tinha que ter uma caneca para esgotar, de tempos em
tempos, o choro da Cremosa.
Além
de teimosa, Cremosa também estava acima do peso, ao menos do peso que
Seu Batista, com seus finos braços, conseguia suportar. Sozinho ele não
dava mais conta de ir pescar. Então se socorreu a um neto, que morava no
bairro e que, em alguns aspectos, lhe lembrava. Era magrelo que nem ele
e adorava uma pescaria. Não era falador como Seu Batista, mas algo
teimoso e rabugento como ele. Esse neto era o Dotô e contava já 16 anos
nas costas, 64 anos a menos que Seu Batista! Coincidentemente, a idade
que o senhorzinho tinha quando o neto nasceu!
Dotô,
de “doutor”, foi apelido cunhado pelo próprio Seu Batista e nada tinha a
ver com uma eventual vocação para medicina, nem tão pouco devido a uma
inteligência acima da média... Ok, não vou negar, esse neto tinha uma
inteligência um pouco acima da média! Mas não foi por isso. O apelido
remontava a meados dos anos 70, quando na TV tinha uma novela com um tal
de Dr. Tomaz. O neto fora passar a noite na casa do avô e estavam todos
vendo a novela. Num corte de cena, eis que apareceu o Dr. Tomaz em
close e o avô, na mesma hora, achou parecido com o “bililico”. Na
ocasião o “bililico” era o neto! – Em tempo: ‘bililico’, era uma
designação genérica que Seu Batista usava para qualquer guri pequeno...
Contrariado, o neto virou-se para o avô e protestou! Grande erro! Não
teve mais jeito, o neto virou o Dotô. Fazer o quê? Hoje ele até gosta!
E
lá passaram a pescar, quase todo dia. Seu Batista e Dotô domavam a
Cremosa teimosa e partiam para o ponto da cocoroca. Se fosse “calada de
vento sul”, remavam até o lodo para tentar umas papa-terra. Caso
contrário, íam até a Pedra do Marimbau ou então ao ponto da canhanha.
Tudo sapiência antiga de Seu Batista!
Mas
o maior sufoco com a Cremosa, foi quando foram pegos desprevenidos por
um pampeiro louco, que chegou de supetão. O mar encrespou rápido. De
imediato, Seu Batista e Dotô começaram a remar à bombordo, para a canoa
virar à esquerda, rumo à praia. Mas a Cremosa era teimosa e não virava!
As ondas a pegavam primeiro pela proa (que estava para trás) e a
empurravam para o lado. Resultado, eles estavam remando paralelos à
praia e recebendo as ondas, cada vez maiores, no costado de bombordo.
Desnecessário dizer que a Cremosa, que já era temperamental, balançava
feito um cavalo chucro no mar agitado. Os dois tentaram então remar pra
trás, para fazer a canoa virar, mas não tinha jeito dela aprumar para a
praia. Dotô já tava vendo ele e o avô tomarem um banho de mar forçado...
Então, Seu Batista, com toda sua experiência, disse para o Dotô soltar a
poita. No que a âncora bateu no chão, travou a Cremosa e o próprio
pampeiro se encarregou de aprumá-la para a praia. Com uma rápida
descaída, Dotô puxou a poita para dentro da canoa e mantiveram a remada
até chegar na areia. Nesse dia, pescaram só um grande susto!
Mas
o que Seu Batista e Dotô nunca souberam, é que a Cremosa era roubada de
noite por bruxas, que iam até a Pedra da Bruxa, prestar homenagens à
bruxa-chefe petrificada de Itaguaçu. Para não terem que controlar a
canoa no leme, as bruxas curvaram a quilha para bombordo, assim a
Cremosa “cambava às direita” e ia até lá sozinha. Por isso tanto
arrenego!
