Por Gunga Rodrigues
(um acontecimento ilhéu à moda de Revolution – The Beatles;
com pitadas de Eduardo e Mônica – Legião Urbana)
O Luca Bandeira, universitário, estava no segundo ano de Civil, naqueles idos de 1979. Numa festa organizada pelo diretório acadêmico de seu curso, acabou topando com Léa, que cursava a sexta fase de Farmácia. - Era assim mesmo! Os cursos com muitos rapazes nas turmas, como Civil, Elétrica ou Agronomia, convidavam para suas festas, ou mesmo as faziam em conjunto, com cursos onde predominavam as raparigas, como Farmácia, Letras ou Pedagogia.
Pá daqui, pá de lá, o Luca acabou se encantando pelos quitutes da Léa. A garota também se interessou pelo “boyzinho que tentava impressionar” e combinaram de se ver mais vezes. E foi assim que ambos começaram a se conhecer melhor. A Léa era uma revolucionária da pá virada; já o Luca, um caretasso da tradicional família florianopolitana. Ela descolada, ele um zé-roela. Mas “mesmo com tudo diferente, veio meio de repente, uma vontade de se ver, e os dois se encontravam todo dia, e a vontade crescia, como tinha de ser”...
E lá foi a Léa arrastar o Luca pras reuniões do DCE. Ele achava aquilo meio vermelho, além da sua compreensão, mas a Léa lhe explicava as “coisas sobre o céu, a terra, a água e o ar” e “também magia e meditação”. Muito mais coisas existiam entre o Céu e a Terra do que imaginava sua vã filosofia... Era preciso questionar o sistema, mudar o mundo.
E eis que num derradeiro dia de novembro, a Léa chamou o Luca, para com ela, ir até o centro. O presidente do Brasil estava em Florianópolis e ela não podia perder a ocasião. O gajo veio, liso feito jundiá na sanga, descerrar uma placa alusiva à Floriano Peixoto que, nos antesdonte, sufocou com mão de ferro um protesto desterrense. O Luca também se interessou, afinal, era coisa rara um presidente dar as caras na cidade. Com sorte ele veria a autoridade máxima da Nação.
E lá estavam os dois, nas escadarias do prédio da Secretaria da Fazenda, numa tremenda muvuca. A Léa em êxtase! O Luca, desconfiando que não estava no lugar certo, nem na hora certa... O aglomero era nada pacífico e a maionese desandaria a qualquer momento. E não deu outra. Foi o presidente aparecer na sacada do Palácio do Governo pra galera protestar. - Em tempo: naquela época ainda se vivia a ditadura e manifestações populares “hostis” não eram toleradas... De fato! Ao ouvir o sonoro coro, que todo juiz de futebol sempre escuta em campo, o presidente veio tirar satisfações com os populares. Pensa no entrevero!
A Léa não quis perder nada de vista e puxou Luca pelo braço, para ver de perto a contenda. Ainda nas escadarias, ela viu aquele ministro com suas avantajadas orebas, pedindo um safanão. “Telephonum morbidus”, ouviu-se ela dizer e um carinha, que estava próximo ao ministro, sentou-lhe uma bolacha nas orebas. Já na Praça XV, o protesto seguia a mil. E não demorou nadinha pro pau comer. Os home intervieram e a confusão generalizou-se. Corre daqui, corre dali e Luca escutando Léa dizer “ruptis lamina” e a placa alusiva a Floriano sendo depredada.
De repente, Luca sentiu um puxão mais forte em seu braço. Pensou ser Léa novamente, mas a força era excessiva. Um policial o segurava, ao qual outro já se juntara. Léa também fora dominada. Outros estudantes também estavam grampeados. Léa viu o olhar de desespero de Luca e tentou acalmá-lo, dizendo que tudo ficaria bem. Pediu que confiasse nela, que ela tiraria os dois daquela roubada.
“Dilectus equus meus”...
Se pesquisarmos a lista de estudantes detidos naquele dia, não encontraremos o nome de Luca Bandeira e nem tão pouco de Léa. Houve relatos - censurados - de que, quando ainda estavam a caminho do camburão, um corcel negro irrompeu entre os presos e, com Léa na garupa, saiu em disparado galope para, em seguida, feito Pegasus, ganhar os céus.
Não acreditas? Vá ler sobre a Novembrada e seus arquivos ocultos, mané!