Por Gunga Rodrigues
Um tributo a Gelci José Coelho - o Peninha
Essa verdade, verdadeira, que abalou minhas crenças, me foi contada por Maíra Francisca, a bruxa sem medo da Lagoa da Conceição. De Maíra, digo brevemente que, há muito tempo, ela conseguiu que as forças sobrenaturais do Desterro, tanto as do bem quanto as do mal, criassem um portal de passagem no tempo, na Pedra da Feiticeira. Aquela pedra que fica no Morro das Pedras, um dos locais de energia exotérica mais marcantes da Ilha. Pelo portal ela pode visitar outros tempos, do passado ou dos dias de hoje. Maíra tem um cristal das águas profundas, que lhe dá o elixir da eterna juventude.
Mas voltando à conversa com Maíra, ela me encontrou, numa passagem que fiz pelo Ribeirão, e pediu para reformular um pouco o entrevero das bruxas em Itaguaçu. Como vocês sabem, diz a lenda que houve uma festa de bruxas lá, para a qual não convidaram o capiroto. Este, quando soube, foi lá p. da vida e transformou tudo em pedra. Um gigante que estava na festa acabou ficando muito triste e, antes de se petrificar no continente, chorou muito, enchendo de água a baía sul. De fato, há um gigante, há choro e há transformação em pedra, na história, mas os acontecimentos foram um pouco fantasiados no contar de boca a boca. Maíra viajou no tempo, presenciou o entrevero e disse que o senhor das trevas nem tomou parte no causo. E foi assim que ela me narrou.
Onde outrora viria a ser o Desterro, viviam duas irmãs bruxas poderosas, Ítala e Guacira. Elas habitavam um vale relvado que se estendia da cadeia de montanhas à leste até a cadeia de montanhas à oeste. O mar ficava pra lá da cadeia de montanhas à leste e distante tanto ao norte, quanto ao sul. Ítala cuidava do vale ao norte e Guacira, do vale ao sul. Ambas viviam em festa com a natureza e os seres sobrenaturais do lugar. Surgiu então, vinda do oeste, Bassalta, uma gigante nervosa, querendo para si, as terras do litoral. Ítala e Guacira, junto com os seres sobrenaturais que moravam no vale, se metamorfosearam em pedras e se uniram, formando um grande gigante, Itaguaçu, para assim, enfrentar a gigante do oeste.
Bassalta chegou pelo vale do norte, e foi contida por Itaguaçu, que a empurrou para fora. Com o empurrão, Bassalta tropeçou e caiu sentada sobre a cadeia de montanhas à leste, abrindo uma grande passagem para o mar. Vendo as águas invadirem o vale do norte, Itaguaçu correu para defender o vale do sul. Bassalta foi atrás e se atracou com o gigante de pedra. Empurra daqui, empurra dali, pisão nas montanhas ao leste, pisão nas montanhas ao oeste. Até que o pé de Bassalta cava outra passagem para o mar na cadeia de montanhas do leste. Vendo a água invadir a outra parte do vale, Itaguaçu lançou-se raivoso e imprudente sobre a gigante do oeste. Acabou levando um soco na boca do estômago, que espatifou seu corpo de pedra, espalhando os pedaços por sobre o vale, agora inundado. Guacira tombou de bruços, com a bunda de fora, na beira da praia que se formou. Ítala, ‘furiôssa’, se metamorfoseou em lança de prata e atingiu Bassalta. Mortalmente ferida, a gigante cambaleou até a cadeia de montanhas ao oeste e lá caiu deitada, recostando sua cabeça no morro mais alto. Ítala, fincada na gigante, se esvaiu em lágrimas pela morte da irmã. Lágrimas que ainda hoje saem pelos ferimentos no corpo de Bassalta e escorrem pelas encostas.
Quando o homem primitivo por aqui chegou, logo percebeu a gigante deitada nas montanhas do horizonte e a chamou de Cambirela – aquela com muitos seios de leite – pois muitas eram as cachoeiras e corredeiras que desciam pelas montanhas.
E então? O que achou desta nova versão dos fatos? Itaguaçu, o gigante de pedra despedaçado, que duelou com Bassalta, a gigante que jaz nas montanhas do oeste. Um verdadeiro duelo de Titãs! Um duelo que criou a Ilha, com suas baías e lagoas, resultantes do nervoso pisoteio dos gigantes.




