Lagoa do Jacaré do Rio Tavares

Mulheres bruxas atacam cavalos de Cascaes¹

Apanhado de pérolas do folclore ilhéu
Por Gunga Rodrigues

Tempos Modernos - Cruz-credo!

O cenário:
O filho mais velho do Jacinto da Ludovica voltou para a casa dos pais depois de servir o Exército e deu no que falar...

De uns tempos para cá começou a aparecer no lugar um bando de mulheres bruxa, que é um Deus nos acuda. Quase todo o gado está doente. Galinha que dorme em poleiro de arvoredo amanhece morta, sem um pingo de sangue no corpo; e os cavalos andam, de noite, galopando pelo ar que nem loucos. De manhã nos pastos, estão com as crinas e o rabo cheios de nós indesatáveis e sangrando.

A culpa da infestação de bruxas:
– Oh! Primo Gabrieli! O povo de hoje ’tá munto discrente e hirege das cosa que o Nosso Sinhôri insinô pra mo’de a gente se comandá no bem, quando andô aqui neste mundo que nós vivemo.

Tão falando aí inté que o Reimundo Perna-Forte foi à capitáli e vortô contando pro povo daqui que as muié rica da cidade ’tão cortando os cabelo ansim qui nem nós home. ’Tão tombém pintando os lado das cara e os beço com tinta vremeia. E mági: o fio mági veio do Jacinto da Ludovica foi tirado pra mo’de servi no exerço. Quando vortô de lá, não vistia mági cerola por debaxo das carça e por riba das vregonha dele. Sabes o que é qui os home ’tão usando lá na cidade, primo Gabriéli, por debaxo das carça, em vez de cerola? ’Tão usando uma carça curta qui nem as de muié; e o fio da Ludovica chama o apelido daquilo de cueca. Primo Gabriéli, as pessoa daqui, quando subero da nutiça da táli cueca, dero pra ir na casa do Jacinto, só pra mo’de bispá se era vredade memo essas táli nutiça. A Ludovica, pra mo’de se livrá das prigunta do pessoáli daqui, tratô de istindê, no varáli da rua, duas cosa daquela pro povo vê como era vredade. Primo, eu tombém fui vê e eu te digo mági: nós ’temo memo é no fim do mundo! O que eu vi nem te conto... É uma cosa qui nem carça de muié, que mali pode cubri as vregonha da frente de um rapazola de dez ano. Agora tu imagina só, primo: cubri as vregonha do dono dela qui é um home de vinte dôs ano, c’o corpo todo cuberto de pelo qui nem esses macaco qui ando aí trepado por riba dos arvoredo... O sem-vregonha do rapaz já andô falando por aí que vai usá aquilo pro povo vê e só por riba das vregonha da frente e de trás, sem as carça...

– Mági, primo Viturino, antão tu achas qu’o rapági vai fazê isso memo?

– Vai sim, vai fazê e, se duvidá, faz memo nas barba da cara do pai. Pois o bandaio já teve a petulança de chegá a dizê inté qui este povo daqui são uma cambada de matuto e que o pessoáli daqui falo tudo enrado. Diz que não sabemo se visti e que só cumemo pirão de farinha de mandioca com pexe assado na foia da bananera e que ele não qué casá com moça daqui, proque elas têm pitiúme de massa azeda e só uso trança e coque na cabeça. Agora tu vês, rapaz, que castigo nós ’temo arrecebendo até da boca dos fios do propro lugári, que não têm um poco de inducação no pensamento e na boca.

E pra mo’de vê se essa praga que caiu im riba de nós alivia, o povo fez uma porcissão com o São Sabastião da Alexandra do Maneca, que já tem mági de trezentos anos de vida, um poco nos Açôri e um poco nesta Iia do Disterro... Eu, primo Gabriéli, já ’tô c’o coro da pele do corpo arrepiado ente de te contá o que ele disse quando o santo ’tava passando lá no caminho do Mato de Dentro em porcissão.

– O que foi, primo Viturino? O que foi que ele disse?

– Ficô incostado na cerca da frente da casa do pai mági uns discarado daqui inguáli a ele e, quando a porcissão passô, garro pra ri e fazê chacota. Chegô inté a dizê da boca pra fora que aquilo era um buneco de barro que ’tava sendo embalançado por quatro matuto inguinorante e capiongo, que não têm o que fazê em casa; antão, pra mo’de se intretê, ando carregando santo de barro nas costa.

– Primo Viturino, adispôs da porcissão, as diabrura das muié bruxa não abrandaro?

– Como havera de abrandá, primo Gabriéli, se o santo foi xingado na hora que ’tava passando revista nas cosa que tão acuntecendo pra mo’de podê pidi pra Deus rogação por nós?

O castigo:
A Faustina do Zenóbio chega e entra no conversa. Ao final setencia:

– Pra mim, so Viturino, e o sinhôri aí, que ainda não sê a vossa graça, essa murcegada toda que apariceu aí são muié bruxa em traje de demonho. Ninguém me tira isso da cabeça. O murcego é da mema famiia do demonho. O mo difunto pai sempre dizia isso. Eu, so Viturino, esconjuro esses bicho o dia intero, como tombém esconjuro aquele sovina do fio da Ludovica, que veve a xingá o pessoáli daqui com apilido e que inté memo chegô a tê a petulança de escarnecê do São Sabastião, que andava em porcissão no andôri, e tombém dos home que carregava ele. Aquele é um sem-vregonha discarado que inté já tem chegado a botá as vregonha à mostra na frente dos oio do pai, da mãe, dos ermão e de todo mundo. Esse pecado todo que ele botô no nosso lugári, agora nós é que temo que pagá por ele.

– Eh! minha fia! pelo pecadô paga o justo! – falou o Vitorino.

¹ Cascaes, F. O fantástico na Ilha de Santa Catarina. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2015. 272 p