Por Gunga Rodrigues
Se te perguntassem, qual foi teu maior cagaço? Lembrarias, para contar? Mas cagaço mesmo, não esses sustinhos que a gente leva por aí, assistindo filme de terror... Cagaço como define a sabedoria popular - aquele susto inominável instantâneo, cuja reação se processa em câmera lenta. Se não lembras, istepô, é porque provavelmente nunca levastes um!
Meu pai contava que o dele foi uma vez que ele chegou do Instituto Estadual, onde dava aula à noite. Ainda solteiro, entrou na casa do vô e foi para o seu quarto, que estava escuro. Lá havia um guarda-roupa com espelho na porta, que era meio frouxa e não fechava direito. O chão era de tábuas, que cediam levemente ao pisar. Meu pai foi caminhando em direção à cama, quando o desnível no assoalho fez a porta do guarda-roupa se abrir sozinha. Ele ouviu o ranger, olhou para o lado e viu aquele vulto do lado dele no escuro, que lhe deu aquele cagaço! O pai correu para acender a luz e então percebeu que o vulto era seu reflexo no espelho do guarda-roupa, e pelo espelho, ele ainda viu seus cabelos de pé!
O meu cagaço, por incrível que pareça, não ocorreu em terras desterrenses, mas nas Alterosas, na época em que estudava os insetos em Viçosa. Num sábado, pela manhã, saí com a esposa e a gurizada para ver um show aéreo no aeroporto de Juiz de Fora, cerca de hora e meia de viagem. Até a Esquadrilha da Fumaça ia se apresentar. E o show aéreo foi massa! Só não foi melhor porque o céu tava carregado pra chuva e a Esquadrilha da Fumaça não pode fazer suas melhores acrobacias. Mas entramos num Hércules da FAB, vimos helicópteros e outros aviões decolarem... Bem emocionante. Inclusive, quando um Fouga Magister fez um pouso meio desajeitado e estourou um dos pneus, derrapando e saindo da pista. Grande preocupação causou, mas só danos materiais.
Pois bem, saímos tarde de Juiz de Fora e, pouco depois de Ubá, a viagem foi à noite, com chuva. A esposa e a gurizada cansada caíram no sono e lá estava eu, dirigindo como que ‘solito’, observando o breu total iluminado pelos faróis do carro. De repente, ao subir uma reta em lombada, surgiu na frente do carro uma luz azul vertical, borrada pelo para-brisa molhado e meio embaçado, que me gerou um arrepio, que partiu da última terminação nervosa do “cuccix”, foi subindo pela espinha, em câmera lenta, até chegar no cocoruto da cabeça. Cara, que cagaço!
No meu imaginário instantâneo, era um disco voador. E parecia que a luz ia à frente do carro! Mas só até a estrada fazer uma curva e contornar um morrinho onde, para minha surpresa e alívio, vi que a porra da luz provinha de uma cruz de luzes fluorescentes no alto do morro. É que para a reta em subida a cruz ficava de perfil e só se via uma luz vertical. Só coisa de mineiro mesmo, fincar uma cruz no alto de um morrinho, no meio do nada, e ainda iluminá-la com luzes fluorescentes. Ah, para, ô!
Mas diz aí, qual foi teu maior cagaço?
