Por Gunga Rodrigues
(um ‘farwest’ ilhéu à moda de Jolene - Dolly Parton)
Essa só não virou bang-bang porque naquela época ninguém tinha revolver, muito menos um rifle! Rede, anzol e renda de bilro era com que lidavam os matutos de então...
Mas dizem que o ocorrido se deu lá pras bandas da Praia do Posto, numa comunidade ao norte da Ponta do Sambaqui, nem tão longe assim da Praia da Luz. Terra essa conhecidíssima pelos incidentes envolvendo entidades muito além desse nosso plano terreno.
Havia lá uma próspera colônia de pescadores descendentes de açorianos, guardadores das festas religiosas e fervorosos crentes do sobrenatural. De tão próspera, evoluiu para um entreposto pesqueiro, atraindo gente de outras localidades, inclusive da capital. E dentre estes “estrangeiros”, chegou Julina. Uma jovem que onde passava, mesmo que não quisesse, chamava a atenção. Sua beleza era incomparável. Longos cabelos cacheados encarnados emolduravam o rosto angelical de pele macia, olhos verde-esmeralda e lábios perfeitos pedindo por um beijo. Sua voz, maviosa como o canto do sabiá, e o sorriso arrebatador perturbavam a imaginação de qualquer um, até do mais recatado dos homens. Os moços em idade casamenteira, um por um, foram os primeiros a serem enfeitiçados. Só tinham olhos para Julina. Só queriam saber de Julina. Depois deles, outros jovens, já comprometidos, começaram a suspirar por Julina. Até senhorzinhos de meia idade lamentavam o tempo passado...
Obviamente que isso despertou ferrenhos ciúmes de todas as comadres e raparigas do lugarejo. Algumas suplicavam em suas rezas para Julina não levar seus amados. Outras chegavam a implorar para ela não arrebatá-los. A Fabriça da Modesta não suportou e chorou quando seu querido Duca chamou por Julina em sonho. Aquilo não podia continuar assim e Fabriça chamou Julina para uma conversa de mulher para mulher. Convidou-a para uma volta até a Ponta do Sambaqui. Embaixo da grande figueira, Fabriça deu seu ultimato. Iniciou a conversa dizendo que ela compreendia como Julina podia facilmente levar seu homem, mas que ela, Julina, não sabia o tanto que ele significa para ela, Fabriça.
“Estou te implorando Julina, por favor, não leve meu Duca. Não o leve apenas porque você pode. Você pode ter qualquer um à sua escolha, mas eu nunca poderei amar novamente. Duca é único para mim, Julina. Eu tinha que ter esta conversa com você. Minha felicidade depende de ti e do que você decidir fazer...”
Julina decidiu ir embora do Sambaqui. Ouviu-se que foi para as bandas do Peri, atazanar os eclesiásticos do Morro das Pedras. Não à toa, lendas de sumiço de seminaristas, nas águas do Peri, são contadas até os dias de hoje...
No duelo entre a bruxa Fabriça, poderosa sob a figueira, e a linda ondina Julina, venceu Fabriça. Julina achou por bem não desafiar os poderes das trevas e foi desfilar seus encantos em outra freguesia.
Jolene - https://www.youtube.com/watch?v=viQx4KDivPY